A frase mais consoladora de ontem: “Aos 90 anos, a natureza do homem está sempre à mercê de tentações as mais deletérias”. (Augusto Frederico Schmidt – Correio da Manhã).

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Manhãs frias essas últimas do Rio de Janeiro. Um amigo nosso com o aquecedor do banheiro enguiçado e hóspede em casa. Às seis horas, ele acordava para o trabalho, abria o chuveiro, sentava-se à borda da banheira, desdobrava o jornal, ficava esperando que a água resolvesse sair quente. Lido o jornal, como a água insistisse em ser gelada, vestia-se e ia tomar banho morno no escritório. A hora do almoço, o hóspede lhe dizia:

– Rapaz, você é duro à beça. Ouvi de meu quarto você tomando banho: a água estava um gelo! Para não perder para você, meti os peitos assim mesmo. O que espanta é a naturalidade com que você faz isso!

Nosso amigo sorria modesto e o hóspede, sujeito a heroísmos de emulação, todas as manhãs tiritava sob a água fria.

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Encontramos em um jornal francês esse pensamento de grande consolação para os calvos: “o cabelo é uma coisa que serve para ocultar a calvície”.

O careca é um homem franco. A vasta cabeleira é uma hipocrisia da cabeça, que, na realidade, é sempre feia, pelada e friorenta como um joelho.

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Aqui na esquina, nos fins do Leblon, há um boteco de português com um restaurante nos fundos, onde almoçam e jantam os motoristas de lotação. “Salta um Camões acebolado!” Camões, à base de feijão, é o prato preferido desses homens, que, depois das refeições, saem dirigindo por aí, mais incertos, perigosos e temerários do que Vasco da Gama e seus marujos, a colher os mesmos resultados da carnificina de Ourique:

Cabeças pelo campo vão saltando,
Braços, pernas, sem dono e sem sentido, 
E doutros as entranhas palpitando,
Pálida a cor, o gesto amortecido..

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Apresentamos aqui, dispensando os versos, a tradução do poema de Jacques Prévert, “Retorno à terra natal”: “É um bretão que volta à terra natal, depois de ter dado várias cabeçadas. Ele passeia diante das fábricas de Douarnenez, sem reconhecer ninguém, e ninguém o reconhece. Está triste. Entra em uma confeitaria para comer “crepes”, mas não consegue comê-los. Paga, sai, acende um cigarro, mas não pode fumar: há alguma coisa em sua cabeça, alguma coisa má, e ele vai ficando cada vez mais triste. De repente se põe a lembrar: quando era pequeno, alguém lhe disse: “você acabará no cadafalso”. Anos a fio, não ousou fazer nada, nem mesmo atravessar uma rua, nem mesmo cair no mundo. Nada, absolutamente nada. Ele fica lembrando. Quem tudo tinha previsto foi o tio Gréssilard, o tio que dava azar a todo mundo, o vaca. O bretão pensa na sua irmã que trabalha em Vaugirard, em seu irmão morto na guerra, em todas as coisas que fez, em todas as coisas que viu. A tristeza se aperta contra ele. Tenta outra vez acender um cigarro, mas não sente vontade de fumar. Resolve então visitar o tio Gréssilard, vai, abre a porta, o tio não o reconhece, mas ele reconhece o tio e lhe diz: “Bom dia, tio Gréssilard”. Em seguida, torce-lhe o pescoço. E acabou no cadafalso em Quimper, depois de ter comido duas dúzias de crepes e fumado um cigarro”.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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