Imagens do homem
Por muito displicentes que nos mostremos em questões de indumentária, a verdade é que todos nós desejaríamos — e quanto — ser elegantes. Por isso, é de aprovar-se o que fez uma fábrica de tecidos: encomendou a um expert normas de vestir, e divulgou pela imprensa essa boa matéria. Lendo-a, já temos perdão se usarmos sapatos amarelos com tuxedo, ou se passearmos no Castelinho de bermuda e chapéu Gelot, como os ignorantes talvez sejam tentados a fazer.
Bastante aprendi com o mestre, que é suave ao ensinar e compreende as dificuldades da vida. Assim, lembra que antigamente a camisa era sempre branca, de alvura imaculada, mas hoje, com a poeira e a míngua de lavadeiras ‘à beira de riachos mansos e cristalinos’, nem sempre nos podemos dar ao luxo de tê-la assim. Ele não autoriza expressamente o uso da camisa marrom ou preta de sujo; longe disso: apenas justifica a moda do cinza, do azul-celeste e do creme, cores que certamente disfarçarão a marca dos novos tempos. O colarinho, por sua vez, seria ótimo se fosse engomado; não podendo, paciência, salvo para casaca — a intocável.
Diz o perito que, nas condições de rotina, a gravata pode ser do tipo regata ou borboleta. Aqui, assalta-me uma dúvida. Na mesma revista em que leio sua lição, outro técnico no assunto informa que a borboleta foi completamente riscada do mapa da elegância. Podemos ou não usá-la? E o lenço no bolsinho do paletó? Você está autorizado a usá-lo “com certo desprendimento”, isto é, muito bem dobrado. Já o segundo cavalheiro, embora admitindo um vago exemplar nos trajes esporte, acha bem preferível enterrá-lo nas profundezas do bolsinho, como faz o senador Valadares, que esconde o lenço tão bem quanto suas intenções no jogo político.
Outro problema: a dobra na bainha da calça. O técnico n° 1 é francamente partidário de sua manutenção, embora reconhecendo da parte de italianos e franceses um movimento herético no sentido de suprimi-la (a dobra, não a calça). Para o n° 2, bainha sem dobra é chiquérrimo, e quem tiver suas calças no estilo velho estará irremediavelmente condenado no tribunal da elegância. Este cita como elegantíssimo o ex-presidente Dutra; espiei-lhe a foto: a bainha da calça está dobrada. Que é isso, marechal?
Já agora, não sei se ponho sapato de atar ou escarpim com o smoking, se calço um cromo bem lustroso, ou se vou só de meia. Os peritos divergem frontalmente nesse grave problema, e o segundo chega a dizer que verniz para a noite é o mesmo que automóvel a gasogênio. A moda de meia sem sapato não seria absurda; seu precursor, creio, é o dr. Juscelino, que a lançou, segundo uma fotografia da época, nas reuniões do ministério.
Como se vê, não só a reforma agrária divide os líderes. A elegância também.