Era uma vez, contou-me o ex-mágico, um homem mal humorado que entrou em um restaurante.

− O que o sr. tem para a gente comer? − perguntou o homem mal humorado ao garçom.

− Temos tudo, cavalheiro − respondeu-lhe o garçom, que tinha muito orgulho da alta classe do estabelecimento para o qual trabalhava.

O homem mal humorado, embora não conhecesse os melhores restaurantes do mundo, achou muito pretensiosa a resposta do garçom e disse com um luzir de fina ironia no canto dos olhos.

−Então, o senhor vai me trazer um filé de elefante e fritas.

O  garçom, coitado, ficou encabuladíssimo com o pedido do homem e se retirou devagar, sorrindo com uma vergonha humilde, sem saber o que dizer. Enquanto isso, o homem mal humorado gozava o seu próprio humor, que ele estimava britânico, e não era mais que espírito de porco. Ainda gritou para o pobre garçom:

− E olhe lá: quero o filé bem passado! 

O garçom, então, foi até o gerente e contou-lhe a aventura. Ah, mas o gerente era um austríaco que falava uma porção de línguas, um sujeito acostumado a todos os tipos de gente.

O gerente foi até a mesa do homem, andando como se não houvesse acontecido nada, curvou-se com elegância e perguntou ao homem mal humorado:

A senhor quer desculpar, mas qual foi a pedida senhor fez?

Respondeu o homem mal humorado:

− O imbecil do seu garçom disse que aqui tem tudo. Então, quero filé de elefante. Tem ou não tem elefante?

Oh, como non senhorr? Temos elefantes muito boas imporrrtadas de norrrte de África. 

− Então me traga logo o elefante.

O gerente tirou um caderninho do bolso, um lápis, e perguntou:

−  Porr favorr, senhorr. Parra quantas pessoas é a jantarr?

− Quantas pessoas? Mas o senhor não enxerga? Estou sozinho.

Para uma pessoa, naturalmente − disse o vilão.

O gerente fez um bondoso riso profissional, em que entravam mil desculpas e delicadezas. 

Oh, enton, senhorr vai excusarr. Non podemos matar nossa elefante só para tirrar uma filézinha senhorr. 

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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