Tudo neste mundo é desigual ― dinheiro só vai para quem já é rico, a felicidade para quem é bonito ― aliás não existe mesmo o ditado dizendo que os rios só correm para o mar? Não vê ― com tanta terra firme no continente, terra lisa de planície, terra fresca de montanha, e tudo baldio, o povo só se interessa pela que está difícil, pela que fica do outro lado do mar: inventa pretextos para encobrir a loucura e vai fazer diques na Holanda, disputando ao oceano alguns palmos de terra e lodo; nos Estados Unidos, largando de mão a quase desabitada imensidade americana, capricha em concentrar quinze milhões de pessoas dentro e em torno da pequena ilha de Manhattan, e inventa o arranha-céu, como se de tão cheia a terra já nos estivesse espremendo para cima. Até aqui, neste Brasil vazio, temos que nos comprimir aflitamente no fundo de uma baía, e de tal modo nos apertamos, entre a água e o morro, os dois milhões que já somos, que vamos aterrando a Guanabara de Botafogo ao Calabouço, e escalamos com pontes a distância que nos separa das ilhas da baía, e já tem quem queira fazer um túnel por sob a entrada da barra, ligando a cidade a Niterói.

 

Cumprindo esse programa, está para ser inaugurada a grande ponte de cimento armado que vai ligar a nossa ilha ao continente. Diz que tem seiscentos metros de extensão, sai lá na praia de Ramos, toca na ilha do Fundão que fica no meio do caminho, no Fundão se estira um pouco por terra, depois vira ponte de novo e vem deitar as últimas pilastras junto às pistas de aterrissagem da base aérea do Galeão.

 

De ilha que éramos, ficaremos transformados em subúrbio ou, quando muito, em península. Para longe irá o nosso esplêndido isolamento, as nossas noites tranquilas depois que parte a última barca. Em lugar disso teremos o asfalto, o telefone automático, os ladrões de galinhas, os prédios de incorporação, o “pif-paf”, a radiopatrulha e outras amenidades da zona sul.

 

Os progressistas estão radiantes. Mas se eles queriam progresso, por que diabo vieram morar aqui? Aliás, a pergunta é desonesta, me desculpem, vou tratar de retirá-la. Vieram morar aqui porque não podiam morar lá, é claro, e a ilha, digam o que disserem, sempre é Distrito Federal, capital da república. Zona urbana autêntica, tão urbana quanto a rua do Ouvidor, no entender da Prefeitura. Tenha embora algumas dezenas de quilômetros quadrados de terreno baldio, direi mesmo selvático. Embora haja cobras, jararacas preguiçosas, gambás e outros bichos de bom tamanho dentro destas capoeiras de mato cerrado, somos zona urbana. E em breve nos transformaremos em zona urbaníssima. Perdida será a nossa paz, a nossa inocência. Perdidas as viagens de barca, o tranquilo interlúdio marítimo entre a casa e a cidade, perdido este isolamento provinciano em que nos fechamos, e que transforma cada ida ao Rio ― mesmo que seja a cotidiana ida ao trabalho ― numa espécie de travessia, de viagem, do interior para a corte. Seremos velozes, cairemos no reino da gasolina, da lotação e do ônibus. Ou quem sabe teremos trens de subúrbio ― um ramal da linha auxiliar, apitando e cuspindo fumaça preta de carvão sobre as garças do Jequiá. Por obra da ponte, dentro em pouco será a ilha apenas uma recordação na saudade dos que a amaram. Já não começou antes mesmo a obra de destruição? Em baixo de concreto, betume e pedra britada já foram enterradas as quintas de cajueiros do Galeão, nas obras do aeroporto. De uma em uma, serão descobertas e violadas as nossas enseadas mais escondidas. Dia virá em que até a praia Grande perderá o seu silêncio, os seus currais de peixe serão substituídos por ancoradouros de caíques, e onde agora tem uma amendoeira verde deitada no chão e a casa do nosso amigo João Pescador, com os seus jiraus para secar as redes, haverá bombas de gasolina ou uma daquelas horríveis caranguejolas de cimento que em Copacabana servem para vigiar os banhistas. Arrancarão as pitangueiras, porque onde há progresso não há pitangueiras ― é da lei. E todo espaço será pouco para as casas, os passeios, os trilhos de bonde. Os pobres que hoje ainda são donos das ruas, terão que se mudar para os morros mais altos e nos nossos vales derrubarão as bananeiras para encher tudo com bangalôs californianos, e estruturas retilíneas em estilo nazista, e vilas florentinas, e grotescas residências com fachadas de colunatas e arabescos barrocos. Deixaremos totalmente de ser ilha ― seremos mais um bairro da grande cidade. Muitos se orgulharão disso; há gente para tudo neste mundo ― é frase que sempre me está na boca.

 

Tudo por obra de uma ponte: seiscentos metros de cimento e ferro e atrevimento. E assim se muda a face da terra que Deus criou, e de tal maneira a deformam, a encobrem com postiços e a cortam de cicatrizes que difícil será para ele reconhecê-la, se algum dia se lembrar de sobre nós baixar a sua vista.

rachel-de-queiroz
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