A carta é em puro papel de linho francês, desses que hoje em dia ninguém mais vê. Tem na borda um friso em relevo dourado, que por si só é uma preciosidade; tomando a metade superior do papel um desenho complicado, com um arbusto, dois cordeiros, dois pombos, um regato e uma coluna. Na face externa dessa coluna está escrita a palavra amitié sob uma guirlanda de rosas. Por sobre a coluna, dois corações em chamas e por sobre os corações, presa ao galho do arbusto com três fitas encarnadas, uma coroa de flores. Dito assim, parece complicado, mas o efeito do conjunto se não é belo, é pelo menos impressionante. Esqueci de contar que ao pé dos carneirinhos vê-se um carcaz com as flechas de Cupido.

Debaixo desse abundante armorial amoroso se agasalha uma carta de noivado. A carta em que o meu tataravô, o cirurgião Francisco José de Mattos, combinava o pedido de casamento com aquela que foi minha tataravó, Dona Florinda de Alencar. Estaria ele na primeira casa dos vinte, ela nos seus dezoito. A missiva não traz data, mas fazendo os cálculos pela idade dos descendentes do casal, posso afirmar que foi escrita entre 1840 e 1850. 

Ei-la, na integra:

Mma. Senr.ª D. Florinda. 

Com o maior agrado li a vossa ingênua resposta à minha carta, de confesso-vos Senr.ª ter ficado inteiramente satisfeito pelo quanto me afiançais, o seguro resultado de minha pertenção. Dignai-vos dizer-me por extenso o nome de vossa Respeitável Mãe, e instruir-me de que maneira me devo dirigir a ela, sim: se precisarei do intermédio de algum dos vossos parentes com quem tenho amizade, ou se nela descobris a meu respeito alguma propensão que a faça sujeitar ao meu pedido. Não estranheis a minha prevenção, antes suponde eu querer sempre obrar com segurança afim de realizar a pertenção que me ocupa.

Acolhei em vosso coração os ternos respeitos da pura amizade que sinceramente vos prosterna, 

Vosso fiel

Amante

Francisco José de Mattos 

Não sei se em mim fala o coração parcial de tataraneta, mas esta carta sempre me pareceu uma beleza. Diz tudo, diz amor, diz respeito, diz principalmente vontade expressa de casar. É uma carta objetiva e sentimental, e havia de traduzir grande amor, pois, por tudo que sei, a moça era pobre, filha de viúva, órfã de revolucionário, cuja família as sentenças de prisão e morte e as perseguições políticas haviam reduzido à pobreza.

Contudo, não se derrama o missivista em entremeios líricos, não fala em sol, em lua, em coração sangrando, como seria tão do gosto da época. Acho bem curiosa aquela inicial: “a vossa ingênua resposta”.... Que fenômenos de ortografia e sintaxe teriam autorizado esse ameno adjetivo? Pois as moças brasileiras naquele tempo eram bastante iletradas. O cirurgião amava, entretanto, e o confuso bilhete da namorada, mal garatujado e mal soletrado, apenas lhe pareceu “ingênuo”. Não mentiu, entretanto, não exagerou; sem magoar a noiva, resumiu numa palavra sincera e cortês a impressão que deixara a sua literatura epistolar.

Outra coisa que há importante nessa carta é a apresentação, no seu sentido legítimo, de uma palavra atualmente desmoralizada, decaída: a palavra “amante”. Aquele que ama; não só aquele que ama de amor ilegal, mas o que ama de amor puro, o noivo, o namorado. É esse um dos mais belos vocábulos da língua e, no entanto, tem para nós de agora um sentido clandestino e ilegítimo, o cirurgião, que mal vira a moça Florinda, que decerto só lhe falara em alguma novena na matriz de Baturité, ou quando muito dançara com ela uma contradança num baile ― intitulava-se pura e altivamente de “amante”.

Nem posso contar os prodígios de astúcia doméstica que careci de usar para entrar na posse dessa carta; se bem que não seja ela a única herança de Dona Florinda em meu poder; restam-me uma bandeja de prata, três pratos de porcelana de Limoges e dois camafeus. Mas isso já são relíquias dos seus haveres de dona casada; ― e essa missivista de cartas ingênuas revelou-se mulher de vontade forte; o seu fiel amante e fiel marido era homem de gênio brando, temente de Deus e da esposa. Foi ele o inventor de umas pílulas que do Acre ao Rio Grande do Norte ainda hoje são famosas: “As pílulas purgativas do Cirurgião Mattos” ou simplesmente “pílulas de Mattos”. Tanto as pílulas como a profissão cirúrgica o fizeram ganhar várias fortunas que, ― dizem as más línguas ― dona Florinda dilapidava-as todas. Era senhora com partes de fidalga, muito chegada a luxo. Teve o casal creio que 14 filhos, entre os quais várias moças, todas formosas, que dona Florinda queria só casassem com doutor. Uma delas, minha bisavó Amélia, morreu de parto aos vinte e dois anos, deixando três filhos. A outra, madrinha Dondon, que era linda e se casou com um poeta, enviuvou aos dezoito anos, cortou os cabelos, trancou-se num quarto escuro, do qual só saiu cinco anos depois para criar os filhos da sua finada irmã Amélia. Todas as demais tiveram também sorte triste, ― morte ou viuvez prematuras. Pois o casamento, naquele tempo rigoroso e insalubre, não era o que é atualmente ― uma alegre aventura começada entre coquetéis e acabada sabe Deus como. Casamento no Ceará, em 1850, era um casarão cheio de escravos, logo depois cheio de filhos, os partos arriscados e seguidos, e o marido também em constante risco de vida, pois eternamente tinha de andar embarcado atrás de melhoras de fortuna, ora às voltas com a febre amarela aqui no Rio, ou com as doenças mortais que ia apanhar na Amazônia.

Isso quando não morria de bala, nas lutas políticas, o que também era comum.

rachel-de-queiroz
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