Há algumas semanas saiu nesta página um desabafo, uma dessas explosões que rebentam quando a gente não pode mais com a vida nem com o mundo e suas pompas e diz verdades duras que estavam represadas há muito. Verdades que são como enchentes de inverno e aproveitam qualquer fenda na parede do açude para arrombá-la e libertarem-se. A tal crônica chamava-se “Não escrevam” e era uma advertência às jovens candidatas ao nosso ingrato oficio, um conselho para que largassem de vez as ilusões da pena. Nunca esperei que essa confissão merecesse interesse maior do que o merece a demais matéria semanalmente publicada na nossa última página. Surpresa foi, portanto, a reação dos leitores que em número bem alto vieram protestar contra as declarações desta sua criada. Alguns cavalheiros e damas, evidentemente, alimentam ambições literárias e irrita-os qualquer restrição ao seu otimismo. Outros supõem falsas as palavras da cronista, simples dengo de beletrista que deseja arrancar lisonjas por quaisquer meios. Outros oferecem espontaneamente o seu aplauso e o seu estimulo, em palavras generosas e lisonjeiras. Outros, afinal, falam por simples bondade de coração, porque se acostumaram às conversas desta pobre de Cristo, e aos poucos lhe foram querendo bem; e vendo-a descobrir-se, descobrir suas amarguras e seus fracassos, se enchem de piedade, e procuram animá-la, a poder de bom humor e de amizade. Benza-os Deus, amigos.

Entre essas últimas cartas há uma, por exemplo, escrita de um lugar quase perdido no mapa; o seu autor explica que escreve instalado “na minha barraca de lona armada aqui no sertão do oeste paranaense, onde vou ganhando a vida abrindo picadas, margeando caudais e medindo azimutes. Imagine que para endereçar esta carta terei que transpor uma corredeira e andar légua e meia até a venda mais próxima”.

Outro correspondente é um médico da cidade de São Carlos, terra paulista que para mim tem muita importância; foi nessa cidade que um dos meus heróis prediletos, o Padre Diogo Antônio Feijó, passou anos da sua trabalhosa mocidade, endurecendo a têmpera de homem e se exercitando nas suas virtudes mais características: o amor da solidão, a pobreza, a coragem.

Ambos esses correspondentes desconhecidos não são literatos nem têm ambições literárias. Nenhum deles procura fazer frases, mas explicam com singeleza e precisão a importância recíproca que podemos ter uns para os outros, exprimem a sua solidariedade e o seu interesse ― ouso dizer a gratidão que sentem por nós, os artistas.

“Nós, homens de trabalho, jamais recompensamos os artistas pelo que nos dão de seu; mas a eles é que recorremos nas folgas da luta pela vida, que é sempre árdua, e da qual saímos exaustos, às vezes desiludidos e sempre embrutecidos. Por isso julgo que são os artistas a parte melhor da humanidade”.

Aí, nisso é que se enganam, meus caros amigos. Somos humanidade, apenas humanidade; nem melhor, nem pior. E quem sabe, se pior? Pelo menos devemos ser mais deformados, vaidosos, complicados, do que as pessoas comuns. Somos um pouco como o menino-cobra que aprendeu a contorcer o corpo como se não tivesse ossos, ou temos a garganta dilatada como o engolidor de espadas, ou os pés riscados de calos, como a moça do arame. Quanto mais raras e divertidas são as sortes que fazemos, mais caro em sofrimentos, recalques e amarguras isso nos custou.

É conhecido o caso de um bom escritor, homem muito infeliz, de vida interior perturbada, penosa, cheio de complexos os mais torturantes, que produzia abundantemente e era a delícia dos seus numerosos leitores. Um belo dia apareceu-lhe um psicanalista que era um ás na profissão. Fez um tratamento no escritor, curou-lhe os complexos e as dores de alma. O camarada é hoje um ente normal, pode-se dizer feliz; contudo, nunca mais escreveu nada que prestasse. Ficou bom, curou-se ― mas perdeu o encanto...

Moralidade: anão de circo não deve tomar remédio, porque se arrisca a crescer e perder o emprego.

Contudo se para nós, os jograis do público, pode haver alguma recompensa, será essa recompensa a amizade de vocês, sua compreensão e o seu carinho. Sabermos que riem não só por troça e choram não só de histerismo. Isso é o que ainda nos faz ir adiante. Na hora de sentar em frente da máquina, são vocês que nos fazem recalcar o recuo enojado ante mais uma funçanata, mais uma exibição semanal. A gente pensa: “Escreve, criatura, escreve. Arranja uma história alegre ou uma história triste, mas escreve”. Há aquela senhora de Minas, que precisa esquecer por dez minutos a sua ciática ou o seu mal cardíaco. Há o doutor de São Carlos que trabalhou até à noite, auscultou doentes malcheirosos, rasgou abcessos, viu uma criança morrer sem lhe poder acudir ― e precisa arejar a alma, pensar em coisas de espírito ou coisas de inteligência, para amanhã ter ânimo de voltar à mesma lida, rasgar abcessos e ver morrer crianças. E há ainda o engenheiro que acendeu o lampião de querosene e estirou-se na maca, roído de mosquitos, cansado do mato e saudoso do mundo, vítima do tédio dos instrumentos e dos números que é um dos piores tédios que existem, porque é um tédio mecânico; ele também precisa de ti, quer ouvir falar de poesia e de arte, ou pelo menos quer ouvir outra voz além da voz dos seus cálculos.

E a gente sente então, pela primeira vez, no vazio da nossa futilidade, que tem um dever a cumprir. Como aqueles artistas que vão dançar e cantar nos acampamentos dos soldados, na linha de frente.

Mas em compensação, não se zanguem, amigos, quando o pelotiqueiro se lamentar um pouco. É que engolir espadas muitas vezes dói.

rachel-de-queiroz
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