Muito se tem pregado, entre nós, a famosa “convivência dos contrários”. Diz-se que é distinto, que é democrático, que é ser inglês…

Mas a verdadeira convivência de contrários só me parece possível num país em que só uma classe mande, e as duas parcialidades que dividem entre si o governo são apenas subdivisões dessa classe. Na própria Inglaterra, modelo clássico dessa convivência, tudo só correu bem enquanto houve apenas liberais e conservadores se revezando na chefia. Depois que entraram no jogo os trabalhistas (embora se trate dos amenos trabalhistas ingleses), a convivência azedou e a cortesia desapareceu.

Porque as separações que hoje dividem os homens, especialmente os da política, são por demais fundas e básicas para permitirem qualquer aproximação cordial, fiada na boa-fé recíproca. Se a nossa principal divergência está justamente em não acreditarmos na boa-fé do contrário! Política, há muito tempo deixou de ser esporte de gabinete e de salão, mudou-se para os campos de concentração e para as refregas de rua. Política, hoje, é carne e sangue, vida e morte. Não podemos ter cordialidade para com o nosso adversário porque ele é, realmente, o nosso inimigo. Representa o contrário da nossa concepção de segurança, do nosso ideal democrático, representa, de fato, uma ameaça à nossa sobrevivência. Se eu penso que o sr. Fulano de Tal é um desonesto, ou um demagogo, ou um inimigo do que entendo por democracia, se estou convencida de que ele explora a miséria do povo em benefício do seu grupo econômico, ou a ingenuidade das massas em benefício da sua sede de poder político, — como é que eu posso dar a mão a esse homem, comer com ele na mesa, a pretexto de que somos todos democratas e portanto devemos conviver cordialmente? Começa que democrata ele não é — pelo menos o que eu entendo por democrata. E depois, qual a vantagem desse convívio e dessa cordialidade? A mim parece que a vantagem estaria justamente em manter a vigilância acesa, as arestas aguçadas, as divergências sem ponte.

Convivência é coisa perigosa. Não foi à toa que os comunistas, gente duramente realista, decretaram o famoso artigo 13 dos seus estatutos, proibindo a convivência com adversários. É que os homens, vistos de perto, são muito semelhantes. Políticos, até mesmo os ursos soviéticos, recebem todos um certo polimento de salão, sabem manter uma conversa agradável. O fato de ser reacionário, desonesto, perigoso, não impede um homem de ser espirituoso e amável. Quer dizer, se privamos com um homem, a nossa tendência é lhe perdermos o medo, o nojo ou a prevenção que nos causa, nos acostumarmos com ele, mais facilmente nos entendermos com ele. Pois não há nada como a convivência para preparar o caminho da tolerância. E qual será a vantagem da tolerância neste mundo feroz em que vivemos, dentro do qual a intolerância representa talvez uma das formas mais seguras do instinto de conservação?

A pergunta é esta: qual a vantagem da convivência entre um democrata autêntico ou um socialista honesto com um brutal “realista” da política, desses que vendem a pátria aos retalhos no balcão e negociam em votos como se bancassem jogo do bicho? Acho que só pode causar perigosa confusão. Criar compromissos de camaradagem, condescendências arriscadas. O deputado A., por exemplo, é um democrata exemplar, um homem de cultura, de convicções liberais, de limpíssimo passado político. Que benefício resultará para o país, para a democracia ou para qualquer um de nós, se o deputado A. passar a viver de cama e pucarinho com o seu colega B. — homem de passado negro e ideias perigosas? A. não regenerará B., é lógico. E felizmente B. não corromperá A. Mas, na convivência diária, A. irá se habituando a B., há de lhe conhecer os lados melhores, as virtudes domésticas; provavelmente não haverá recíproca, porque B. não tem entranhas e não se comove com nada. Mas breve teremos um A. amolecido em relação a B., seu camarada, seu conviva; e, quando chegar a hora de o combater, encontrará em si o democrata a mesma flama, a mesma implacabilidade de que usaria em relação a um desconhecido?

Mas há ainda outro perigo: é o eleitor, o contribuinte, o humilde espectador. Atônito, desorientado, não entenderá por que A., homem bom em quem ele confia, convive cordialmente com B., homem mau que ele teme. Será que o Diabo não é tão feio como o pintam? — pensará o patrício anônimo. E aos poucos terá muito menos prevenção contra B., e ficará indeciso quando B. lhe pedir votos e lhe oferecer vantagens; se o seu chefe A. não desdenha a amizade de B., por que a desdenhará ele? “O que serve para o doutor A., deputado, também serve para mim, pobre diabo”. E daí a votar em B. irá apenas um passo, mormente se lhe acenam com qualquer vantagem ínfima. 

Tolerância é virtude dos fracos. Tolerância, na verdade, é tibieza. A Igreja Católica, que é uma das maiores forças do mundo, que é a única instituição universal com dois mil anos de existência e autoridade, a Igreja Católica faz da intolerância uma das bases da sua segurança. Ela não cede uma linha, não transige um passo, não entra no menor compromisso.

Tolerância seria bom entre iguais. Mas entre adversários irreconciliáveis é romantismo superado, é suicídio. Tomara a eles nos apanharem de jeito — e voltariam as masmorras, os desterros, a rolha, os tribunais de segurança, os trucidamentos policiais, os “banhos de sol”, as “sessões espíritas”.

Não, não há entendimento possível. Ou são eles, ou somos nós, nada há que justifique ilusões de convivência “à inglesa”. Quem for homem e forte, reaja como homem. Eu, por mim, fraca mulher e que não brigo, só posso prometer vigiar, denunciar. E a minha mão a eles, minha palavra de amizade, isso não dou não. Não dou nem bom dia, se puder evitar: nem sequer digo saúde quando espirram.

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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