A 30 de outubro de 1821 – há exatamente 139 anos –, nascia na Rússia um homem a quem estava reservado um dos mais trágicos destinos de vivente, e que, simultaneamente, talvez como compensação à sua vida dramática, foi o autor de uma das mais importantes obras literárias do mundo inteiro, em todos os tempos.

Chamou-se esse homem Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. Menino, ainda, viu o pai ser assassinado numa revolta de servos, a quem ele oprimia em excesso. Rapaz, apaixonou-se pelas ideias socialistas da época, por causa disso foi julgado e condenado à morte; quase no momento da execução, o czar comutou a sentença para trabalhos forçados na Sibéria. Durante quatro anos foi presidiário, mais seis anos exilado; só passados dez anos voltou das terras geladas da Rússia Asiática. Perdoado afinal, reiniciou a carreira literária, viajou, casou duas vezes, foi pai, amou, sofreu – sim, acima de tudo, sofreu terrivelmente. Sempre enfermo – teve o primeiro ataque epiléptico por ocasião do assassinato do pai – pobre, endividado, atormentado por problemas políticos, sentimentais e familiares, poucos dias de sossego terá conhecido nos 60 anos da sua vida dolorosa.

E do vagaroso, sangrento calvário, que foi essa existência, nasceu entretanto uma obra literária que mais parece de um iluminado que de um simples escritor – densa, terrível, a nos revolver o coração como se usasse pinças de fogo, pondo a nu, com implacável crueza, os mais escondidos mistérios da natureza humana.

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A obra de Dostoiévski, traduzida em todas as línguas civilizadas do Mundo, sempre foi conhecida e estimada à altura dos seus méritos pela intelligenzia brasileira; infelizmente por precárias, imperfeitas, limitadas a alguns livros as traduções portuguesas, o nosso leitor procurava de preferência as versões francesas, alemãs, inglesas, castelhanas. De alguns anos para cá, entretanto, por iniciativa do editor Daniel Pereira, apaixonado pela obra dostoievskiana, a José Olympio empreendeu a façanha de dar ao público brasileiro uma edição integral das obras completas de Dostoiévski. Entregou a tradução a escritores que, além da indispensável idoneidade profissional, tivessem no seu amor pela obra do gigante, um estímulo especial para o difícil trabalho. Escolheram-se textos em francês, inglês, espanhol, castelhano, alemão, das mais autorizadas edições, para que deles se utilizassem os tradutores brasileiros, infelizmente ignorantes da língua russa. E obteve-se a colaboração de uma competente intelectual russa, sra. Marina Stepanenka, para cotejar as nossas versões com o texto da edição oficial russa, verificando-lhe a fidelidade, e ao mesmo tempo uniformizando a grafia dos nomes próprios, em geral deturpados na transposição para caracteres latinos. A esse trabalho ainda deu a sua ajuda o ilustre romancista brasileiro, mestre do vernáculo e poliglota, João Guimarães Rosa.

 

Não contente com essas exigências minuciosas no que toca às traduções, o editor pediu ainda a colaboração de ilustradores de renome internacional, para valorizar ainda mais a coleção, dando-lhe uma característica singular: é a única edição ilustrada das obras completas de Dostoiévski, no mundo inteiro. Assinam essas ilustrações o grande Oswaldo Goeldi, recente vencedor na Bienal do México; Danilo del Prete, 1° prêmio na Bienal de São Paulo; Gassman, laureado da Bienal de Veneza; Darel, prêmio de viagem à Europa; Lívio Abramo, o mestre Axel Leskoschek, e o nosso caro hors concours, Luiz Jardim.

 

Com amor, humildade e reverência, incumbi-me da tradução de quatro dos romances da coleção: Humilhados e ofendidos, Recordações da Casa dos Mortos, Os demônios, Os irmãos Karamazov; Rosário Fusco traduziu Crime e castigo; outro poeta, e grande – Lêdo Ivo –, traduziu O adolescente; mestre Vivaldo Coaracy e Olívia Krahenbuhl repartiram a tradução de Noites brancas e O ladrão honrado; Gulnara de Morais Lobato e Boris Schnaiderman verteram O eterno marido e várias novelas.

 

Foi um trabalho de devoção e entusiasmo da parte de tradutores, ilustradores e editores. E tenho a impressão de que valeu a pena, pois sei que o público leitor do Brasil merecia receber uma apresentação de Dostoiévski, em que o esforço de todos contribuísse para a tornarmos o mais possível aproximada às dimensões da sua grandeza.

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Madrigal

Lúcia Benedetti nos envia um lindo presente de Natal: a Coleção Madrigal, de histórias para crianças, adaptadas por Magalhães Júnior e outros, e incluindo entre elas o lindo conto “A menina das nuvens”, da autoria da grande pioneira da nossa literatura infantil, que é a própria Lúcia.

A apresentação dos livrinhos é extremamente original, e faço questão de registrar aqui a novidade, com o gosto que tenho em saudar as iniciativas que resultem no crescimento da nossa literatura para crianças, a qual apenas Lobato, Lúcia Benedetti, Lúcia Machado de Almeida e mais alguns poucos dão qualidade e importância.

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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