Cartas de leitores me pedem de vez em quando para contar como é uma fazenda do Nordeste e, dentro da fazenda, o que é propriamente o açude.

Diz um: pelo que lê nos nossos romancistas, o açude lhe dá a impressão de "ser o núcleo, o coração da fazenda". Isso mesmo; fazenda sem açude é um casco morto, sem gado, sem moradores, sem plantio. O açude é o símbolo da riqueza do fazendeiro –ou da sua ruína.

Veja o açude do Junco. Mas primeiro devo dizer o que é o Junco: neste mundo tão grande, não há pedaço de terra mais preso ao meu coração do que aquele trecho bravio do município de Quixadá, a 180 quilômetros do Oceano Atlântico. Engraçado, lá não nasci. Mas por lá deveria andar antes de nascer e para lá hei de voltar depois de morta, se por acaso sobrar de mim alguma coisa, além do triste corpo que a terra vai comer. Já entenderam que o Junco é uma fazenda. Uma fazenda à velha moda do Nordeste, com matas de caatinga subindo e descendo por cabeços cobertos de pedregulho, vastos campestres de capim panasco, coroas férteis de riacho, lagoas que secam no verão; tudo, aliás, ali, seca no verão, e o viajante que por lá passar nos meses de estiagem, jamais poderá entender quanto de riqueza e senhoria se esconde no cinzento da paisagem nua. Tudo seca, menos o açude.

À direita da casa grande, que nós lá chamamos simplesmente "a fazenda", se estende o prato de água que é a vida dos homens, dos bichos e das plantas. Foi feito por mão de escravo, no tempo em que ainda não se usavam vagonetes. A terra subia à barragem arrastada em couros puxados por bois, ou em padiola pela mão dos negros. Fez-se a parede devagarinho, em anos. Não vê que de princípio aquilo era uma lagoa, alimentada por sete riachos que só correm no inverno. Aos poucos o dono foi levantando uma barragem, procurando armazenar mais água; construída sem risco no papel, meio ao acaso, que o lugar nem era próprio para açude: uma lagoa aberta, sem nenhuma elevação aos lados, onde firmam os ombros da parede. Assim mesmo o açude crescia. O porão se fez fundo a poder de aterros e não como nos outros açudes, num boqueirão natural. De modo que a obra está toda errada como técnica: basta dizer que a parede é côncava, e não convexa em relação à água; mas, como sempre acontece na vida, os erros não lhe prejudicaram a solidez. O açude do Junco já anda perto de dobrar o século e meio, e nesse tempo todo de existência só arrombou uma vez, no inverno de dilúvio de 1924. Aliás, nesse ano de 24, sangrou pela primeira vez o famoso açude do Cedro, obra do Imperador, e que até então jamais enchera a ponto de atingir o sangradouro.

A água do açude do Junco tem uma cor ferrugenta, tinturada pelo barro vermelho do fundo. Mas é boa, sadia e doce como água de chuva. A parede lhe cerca mais da metade, enorme, curva, e lembra uma muralha de cidadela. Na represa que se espraia do outro lado, ficam as vazantes sempre verdes, povoadas de galinhas-d'água e jaçanãs. Na ponta da parede, a marcar o início do porão, uma umarizeira velha e sombria se debruça à beira da água. Era lá que, de noite, eu deixava minha espera de traíra e na madrugada seguinte achava presa no anzol cada traíra de dois palmos, bicho feio de dente agudo, boca rasgada de tubarão.

Quando as águas do açude atingem determinada altura, a sangria começa; o sangradouro é um paredão de pedra e cal, com quatro metros de altura, por onde a água se despenca numa lâmina só, violenta e cor de prata. E quem quiser sentir uma coisa que nunca sentiu, se meta pelo túnel formado entre a muralha de pedra e a parede de água: o coração fica pequenino, a alma míngua, as pernas tremem, o fôlego sufoca; a gente nem sabe como arranca forças para romper a barreira líquida e emergir ao ar livre, porque só dá uma vontade suicida de ficar lá dentro, naquela sombra translúcida, debaixo da cortina de água, mas sem tocá-la, morrer feito um besouro numa caixa de vidro.

Falei do açude mas não falei na casa, nem no pátio, que é um quadrado aberto, com uns quinhentos metros em cada face, limpo de árvores, e se estende pela várzea até a estação do trem; no tempo das águas cobre-se de mata-pasto grosso, é salteado aqui e além por uma moita de mofumbo cheiroso e, mais raro ainda, um pé de juazeiro ou mulungu. O pátio é a tradição das antigas fazendas de criar; nele se junta o gado nos dias da vaquejada e, da casa grande, que sempre o domina de uma elevação nos extremos, se descortina de longe quem chega, amigo ou inimigo, se vem de paz ou vem de guerra.

A casa velha do Junco é toda de taipa, com o madeirame de aroeira, o envaramento amarrado com tiras de couro cru. Tem mais de cento e quarenta anos de idade, e ainda é a mesma; tirando um quarto a mais, um corredor a menos, faz pouca diferença de como a deixou o seu construtor e primeiro dono, o velho Miguel Francisco, meu tio-bisavô. Casa grande sem senzala, que lá temos dessas anomalias. Os escravos da sala e da cozinha dormiam na própria casa da fazenda, e os escravos de campo, vaqueiros na maioria, eram todos casados e tinham família, moravam em casa sua, possuíam galinheiro, roçado e chiqueiro de criação, quando não tinham curral de gado. Só deviam mesmo ao senhor a obrigação de tomar a bênção. No mais, eram em tudo iguais a homens livres. Palavra que nunca se ouviu por aquelas bandas foi o nome de feitor e muito menos ainda o de capitão-do-mato. Negro do Junco não apanhava nem fugia. Isso de negro judiado eram coisas mais para a Bahia e Pernambuco, terras de senhores duros, aflitos por tirarem do açúcar todo dinheiro que ele desse, fosse ou não misturado com sangue de cativo. Mas nas nossas fazendas a cana era pouca e de sal. O gado pé-duro vivia quase por si, sem exigir sacrifício de ninguém. Mesmo o açude, que se fez a poder de braço negro, levou anos construindo, e a bem dizer se construía de adjunto ou, como diz aqui, de mutirão. E não eram só os negros que trabalhavam nele, mas também os caboclos forros, que todos tinham interesse na obra: talvez fosse aquele o primeiro açude fechado, capaz de varar ano sem secar, em muitas léguas ao redor.

Contei que ele arrombou em 1924. Já tinha mais de um século de construído. Foi um inverno terrível, veio vindo uma enchente em cima da outra, a várzea cobriu-se de água, e só se podia ir da casa grande à estação a nado de cavalo. Ia-se também por cima da parede do açude: mas o caminho pelo alto da muralha de terra batida, roído pela erosão da chuva, torna-se tão estreito e tão escorregadio que mal dava passagem perigosa a uma pessoa. Logo os entendidos começaram a ver no sopé da parede uns sinais de reverência. E quando começou uma carga d'água que durou quatro dias com quatro noites, até parecia que a fazenda velha tinha virado uma arca de Noé. As vacas medrosas se apinhavam no curral do lado, as galinhas se agasalhavam na cozinha, as ovelhas no alpendre, os porcos se metiam por baixo das mesas, na queijaria. De repente, no silêncio da madrugada, ouviu-se um ronco surdo de pororoca; e depois, à luz dos relâmpagos, enxergou-se a cabeça d'água que escondia toda a parede do açude e depois se atirava para a várzea.

Começou o corre-corre de gente. Acudiam os moradores, as mulheres se atiravam de joelhos no terreiro, debaixo da chuva, como se aquele dia fosse o fim do mundo. Muitas diziam que era castigo.

Mas castigo de quê? E afinal se viu que castigo não era. Porque com oito dias tapou-se o rombo. E peixe nunca se viu tanto assim, até parecia milagre. No verão seguinte a parede tornou a se levantar, definitiva, tão segura e serena quanto a outra, feita por meu tio Miguel e seus negros. E até hoje se conserva, 28 anos passados, dando toda a esperança de continuar segura por outros cem anos.

rachel-de-queiroz
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