Disse-me outro dia o escritor, editor de livros artísticos e “arquivista implacável” João Condé que acaba de organizar a sua antologia de “histórias de bichos”, edição de luxo, colaboração de luxo, coisa muito de se apreciar. Há de ser mesmo obra rica como as anteriores por ele editadas, feita com o capricho e a inteligência que estamos habituados a aplaudir.

E a propósito dessas histórias de bichos, cabe aqui uma pergunta. Por que será que as fábulas passaram da moda? Já não faria um Esopo ou um La Fontaine a sua fama à custa dessa literatura zoológica: ninguém procura nem escreve mais sátiras contra os poderosos, pondo figuras de bichos no lugar dos magnatas retratados. O motivo há de ser singelo: é porque tais sátiras já não fazem efeito. A pele dos grandes deste mundo vai cada dia ficando tão grossa que espinho nenhum consegue mais arranhá-la. E fosse a gente compará-los com bichos só mesmo no gênero dos mamíferos perissodáctilos, ordem dos ungulados – só mesmo entre os rinocerontes conseguiria irmandade que os coubesse. E uma manada de rinocerontes acabaria ficando monótona em qualquer fábula.

Na matéria de literatura de bichos descobrimos atualmente que todos os bichos são nossos irmãos, verdade que sempre andou meio encoberta, apesar de tudo que proclamou São Francisco. E nas aventuras de irracionais escritas pelas nossas penas de ouro, pouco antropomorfismo se encontra, ou se encontra tão tênue que o leitor jamais sabe onde acaba a alegoria e onde começa a psicologia aplicada. E parece que o que interessa não é propriamente atribuir sentimentos humanos aos bichos, mas atribuir ao homem sentimentos de bicho. Afinal de contas não são os bichos inocentes que pretendemos satirizar – apenas dos seus nomes nos servimos para satirizar os homens.

Na nossa roda, tempos atrás, havia uma brincadeira usada em hora de fim de festa, feita para espantar o sono: “Se você fosse bicho, que bicho seria?” A semelhança carecia ser não apenas moral, como também material – uma reunião sutil de circunstâncias psíquicas e físicas. Se por exemplo perguntássemos: se Getúlio fosse Bicho, que bicho seria? e alguém respondesse que seria raposa, teríamos que levar em conta não só a alma vulpina do homem, mas o fácies vulpino, se o tivesse.

Quanto ao Brigadeiro, seria ave, naturalmente. Mas não condor, nem qualquer bicho de presa, mas ave de voo largo e sereno das asas grandes – cisne, albatroz, sicion. E Zé Américo, se fosse bicho, que bicho seria? Seria onça, naturalmente: a face triangular, a inteligência fina e cheia de surpresas, o ânimo combativo, os botes de audácia inesperada. E – circunstância altamente característica – seria dessas onças hoje tão raras na caatinga desmoralizada, seria o canguçu – aquele de que fala o cantador:

“... eu sou o canguçu-macho: 
miando em riba da serra 
papoca o lajedo em baixo…”

O ministro Raul Fernandes, que está chegando da Europa e a quem mandamos as nossas cordiais boas vindas – se fosse bicho não seria ave também? Ave discreta e longa – cegonha ou flamingo. E já que estamos nas aves, – o meu compadre Aníbal Machado não seria um pardal? E Graciliano não seria uma coruja de bruxo? Já o mestre Aurélio Buarque de Holanda seria o jaboti, preguiçoso e sabido (no sentido também de sabedor).

Mas vamos parar com as comparações. Dizia meu avô que toda comparação ofende a pelo menos um dos comparados. Porque se tem bichos lisonjeiros, tem também os que maltratam e não adianta zangar os amigos. Cada um portanto que se compare a si; eu de mim, gosto de pensar que se fosse bicho seria cachorro – talvez raceado de bulldog, a cara larga, o nariz curto, o queixo pesado e teimoso – alma de cachorro sempre tive: a mania de vigiar, a obstinação no amar. Mas talvez seja essa ideia apenas uma ilusão com que me embalo. Porque o passatempo tem esse aspecto perigoso: o espelho jamais nos diz a verdade quanto à identidade real do bicho que deve ser nosso retrato. Aquele que se supõe javali não passa dum porco caseiro, o que se imagina águia é um triste urubu camiranga, o que se sonha corcel de guerra não vai além do burrinho pedrês; e o simples baiacu de barriga amarela, basta que alguém lhe coce as costelas, se enche todo de vento e fica certo que é baleia ou peixe espada, e pode navegar em mar alto.

Mas ora, tristes de nós se não fossem esses enganos. Qual a minhoca que não se sonha a boiúna, cobra grande rainha das águas?

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
x
- +