Sim, eu logo te amei, Nova Iorque. Foi ver-te e amar-te, assim que o cab amarelo deixou o recinto do aeroporto John Kennedy, e o esqueleto negro da tua primeira ponte se desenhou proibitivo à frente. Te amei logo. Imensa, bruta, desumana, te amei logo. Babilônia, muitos te chamaram Babilônia. Ah, Babilônia caberia toda na décima terceira parte de um dos teus menores ministérios.

Aqui, diferente do resto, o inglês não é uma imposição exclusiva, o inglês é uma comodidade. Fala-se inglês porque tem que haver uma língua comum a todos. Mas poderia ser o esperanto, ninguém se importava.

Aqui, posso chegar na esquina da rua 57 e soltar o meu grito: Valha-me Nossa Senhora da Guia! Ninguém perguntará o que eu gritei e por que gritei. Pode um polícia, no máximo, me pedir para circular – se aparecer um polícia no momento, o que eu duvido.

Depois de intensas meditações e pesquisas descobri que os grandes polícias azuis de Nova Iorque têm finalidade meramente decorativa; servem para enfeitar as ruas, em cordões, nos dias de visita do presidente e para formar nas paradas dos polacos e dos irlandeses – eles próprios. Às vezes, também um único é posto solitário numa esquina, em lugar de uma estátua. Decerto o mayor de Nova Iorque considera os seus polícias mais bonitos do que estátuas.

Como não te amar, Nova Iorque, se exibiste para mim, numa noite excepcionalmente clara e fria, os contornos iluminados do Seagram's, o edifício mais bonito do mundo? Mesmo com as tuas igrejas góticas – oh, o absurdo das igrejas góticas de cimento – e talvez pior quando são feitas mesmo de pedra, porque são menos inocentes. Mas de qualquer forma são tuas igrejas, Nova Iorque. Feias ou absurdas se incorporaram à tua fisionomia e podem servir de marco e de lembrança. Além de lugar de oração, que é o seu fim específico. Mas não acredito que elas em si louvem a Deus – o grande grito de louvor, alegre, talvez insolente, não é dado pelas pequenas igrejas escuras onde artistas pretensiosos tentaram expandir sua pequena alma – a grande prece iluminada quem a grita ao céu és tu mesma, Nova Iorque.

No doce jardim que dá para o rio, defronte a Sutton Place, onde brincam crianças e cachorros, descobri novos pretextos de amor; nas turbulentas calçadas de China Town, onde pequenos nova-iorquinos de olhos enviesados soltam busca-pés; nas noites supostamente francesas de Greenwich Village, onde os rapazes deixam crescer a barba para semelharem parisienses e onde meninas vindas do Oregon e do Utah fazem muito a sério o seu curso de boêmia em três etapas: undergraduate, graduate e post-graduate.

Na loja de discos um sul-americano de guitarra toca um tango como se tocasse o seu hino nacional, mas ninguém lhe dá ouvidos. Tocasse o hino nacional, aliás, seria o mesmo; nacional de quem, naquela confusão? Um ruivo, evidentemente maconhado, promete um striptease dele mesmo, e mostra por conta as canelas peludas; e três garotas feias, todas três dentuças, batem palmas, fingindo entusiasmo. Ah, Greenwich Village à noite é um palco espalhado por calçadas e inferninhos, onde amadores de pouco talento ensaiam uma peça de vanguarda. Juvenil, juvenil.

Ah, te amo, te amei, Nova Iorque. Tens a alma grande e indiferente como convém a uma rainha, uma deusa, uma cortesã – aliás tu não dizes cortesã nem nenhuma outra reminiscência clássica. Dizes brutalmente uma palavra feia: – whore!

Mesmo não penetrando nos teus mistérios maiores. Mesmo sem conseguir entrada no sanctum sanctorum do Harlem e só lhe conhecendo a visão externa e periférica; mas que profundos abismos de rancor, de orgulho, de raiva e esperança brilham naqueles olhos que não nos olham – e isso dói, porque afinal de contas não somos tão brancos assim. Nenhum de nós pode ser identificado com a besta loura que os teme e detesta e que eles detestam mas já não temem. Antes desafiam, deliberadamente. Atrás daquelas velhas paredes de tijolos vermelhos, proibitivas, inatuais – que aconteceria com o Harlem se de repente as suas velhas paredes virassem vidro?

Te amo, Nova Iorque. Teu rio. Teus dois braços de rio. Os grandes navios que dormem nas docas, esquecidos do mar, como palácios ancorados. Teu céu amarelo, vermelho, roxo e negro, em dégradé, teu céu sem estrelas. Os canteiros de crisântemos de Park Avenue, feitos para serem vistos das janelas lá no alto, escondidos dos passantes pelos gradis. São buquês que a cidade oferece aos seus ricos, em homenagem especial.

A falta de sentimento federal, Nova Iorque, porque só és municipal e universal. Fizeram ali, a um canto separado, o prédio e os terreiros da ONU, mas não era preciso. A verdadeira ONU és tu mesma, Nova Iorque. O Conselho de Segurança poderia sediar à beira do lago, em Central Park, e não incomodaria ninguém, a não ser talvez alguns pombos.

Teus subways que roncam em explosões subterrâneas, aqueles buracos escuros onde as multidões penetram assiduamente como formigas no seu formigueiro, operárias assexuadas, exaustas, de pés doidos. Teu subway tão isolado do mundo como uma nave espacial, onde um homem bêbedo faz sermões obscenos, contando coisas da sua infância na Georgia e ninguém o manda calar. Ninguém se importa, ninguém tem tempo para indignações puritanas. Na verdade talvez até ninguém ouça.

Todo mundo te ocupa, te pisa, te possui, te usa, Nova Iorque. Ninguém perde tempo contigo, parece que não houve tempo sequer para te dar nome às ruas, e às avenidas, basta um número. Ou houve intenção deliberada nisso? – um número não tem tradução, é o mesmo em todas as línguas, impessoal e intemporal, não sugere senão a sua ordem crescente ou decrescente, sem alusões patrióticas ou comemorações estreitamente nacionais. Um número, qualquer estrangeiro aprende e o diz na sua própria língua, e então não se sente mais estrangeiro.

Como não te amar, Central Park? Ventos de outono derrubam as folhas vermelhas, Central Park se despe para o inverno, vai se flagelar com o frio, sem que a perturbem nurses e crianças ou os mais renitentes vagabundos. Vai se dar ao luxo da solidão como qualquer floresta anônima e remota.

Nova Iorque, quem é teu povo? Esses ruivos judeus, esses crespos porto-riquenhos, esses italianos gesticulantes, esses negros desdenhosos, esses germanos e saxões de ar inseguro? Esses chineses, filipinos, franceses, noruegos – ou eu, sul-americana – já que piso nas tuas calçadas sem medo, mas com um fundo sentimento de aventura, porque, além de bela e imensa, és impossível; sim, meu coração me diz que és mesmo impossível.

Ah, Nova Iorque, prisioneira gigante da ilha de Manhattan, encadeada com aquelas brutas pontes de ferro preto. Te amo. Te amei logo, Nova Iorque.

rachel-de-queiroz
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