Se me perguntassem qual é o aspecto mais desolante da civilização moderna, eu diria que é a sua padronização. Neste mundo em que vivemos está se acabando realmente a invenção, a originalidade, a marca pessoal ou, se não acabando, pelo menos seriamente se comprometendo.

De primeiro, todo provinciano que chegava ao Rio tinha o deslumbramento da novidade. Começava pelo povo na rua, pelas vitrinas das lojas, pela roupa das mulheres. Ah, a roupa das mulheres. A provinciana mal punha o pé no cais sentia-se uma estrangeira exótica, com a sua roupa diferente ― e o sapato, o penteado, o chapéu.

Hoje, no mais longínquo sertão as moças se vestem pelo figurino de Hollywood — talvez com uns toques de Brigitte Bardot ― tão igual, tão igual que dá bocejos, quando não dá risadas.

Os concursos de beleza, então. As meninas são tão estereotipadas, tão decalcadas umas pelas outras, tão estandardizadas, dentro de dois ou três tipos — loura fria, morena tropical, ruiva vibrante, que parecem bonecas saídas de uma linha de montagem — onde só variam a cor dos cabelos, dos olhos, da pele — da pele não, pois todas, brancas ou morenas, procuram ficar tostadinhas como biscoitos, o que entre parênteses é muito lindo. Nem mesmo na roupa se diferenciam. Ou antes, muito menos se diferenciam na roupa, se justamente é a roupa elemento principal da padronização. E se fossem só as misses. Mas ande-se em Copacabana e a impressão que se tem é que um colégio soltou as suas meninas pelas ruas do bairro sul. Tudo de blusa de listra horizontal e calça comprida colante — ou saia branca de tergal. Os penteados, os colares, a pintura, os sapatos (agora no inverno é mocassim) são também uniformes. E note-se o traço mais curioso da coisa — elas têm prazer de se sentir idênticas, fazem questão de parecer reproduções fotográficas do mesmo modelo, adoram ser uma unidade num rebanho uniforme. Alguma que venha diferente, mesmo elegante, mesmo bem vestida, choca ― só mesmo porque é diferente.

Parece que morreu aquela preocupação feminina da originalidade, que fazia as mulheres ricas pagarem fortunas por um “modelo” único de grande costureiro, ou as moças pobres rasgarem a página escolhida no figurino da modista, para evitar outras cópias.

E a uniformização vai se estendendo às mesas ― ah, aquele eterno arroz pilaf, aquele suprême de frango, o sempiterno coquetel de camarões; parece que já passou da moda o estrogonofe, meu Deus quantos estrogonofes cada um de nós não terá jantado na casa de um e de outro ou nos botequins de gente bem?

Será que a humanidade está marchando mesmo para a padronização geral, será que o fim próprio do aperfeiçoamento da técnica, o progresso da indústria, o avanço danado da ciência vai nos levar a isso? Tudo parecido, como andorinhas no fio ou misses na passarela?

Dirão os “nacionalistas” que isso é efeito da civilização americana, niveladora, sem imaginação nem originalidade. Mas, pelo que sei, os países ditos “socialistas” também adoram a padronização. Contam até, elogiando, que na China todas as mulheres andam uniformemente de calças azuis...

A fabricação das utilidades em série é talvez a razão principal desse condicionamento ao uniforme, dessa renúncia ao gosto individual, que caracteriza a nossa idade. Acaba-se o artesão, só se obtém o produto de fábrica, lançado no mercado aos milheiros e milhões. São os móveis exatamente idênticos, nos apartamentos idênticos também. As televisões, os rádios, as geladeiras de modelo único ― ou quase único. E em tudo predominando aquele mau gosto inalterável ― que como um gás venenoso permeia todo o mundo civilizado. Passe por uma aldeia italiana, espie a sala da frente, de uma das casas, não tem que tirar Nilópolis ou Vigário Geral: a mobília em folheado, o caixão do rádio na sua mesinha, o quadro da parede, os paninhos bordados, o tapete do chão. É universal, é a internacional do mau gosto.

A padronização chegou agora ao corpo humano. Com a dietética, a cirurgia plástica, a ginástica ― tudo vai se acomodando a um modelo talvez ideal, sim ― mas único. E as falas também se padronizam, o cordão puxado pelos locutores de rádio que desdenham as peculiaridades de pronúncia regional e recitam todos num linguajar artificial, pedante e detestável, carregado de erres, de esses, de ênfase nas tônicas.

Sei que vejo, num pesadelo, o mundo dos nossos netos ― todos belos, saudáveis, mas parecidos, parecidos como gêmeos, morando em ruas iguais, em cidades iguais, vestidos de roupa igual, falando um dialeto só, feito abelhas em colmeia, térmitas no seu cupim.

Deus que me perdoe!

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De primeiro, todo provinciano que chegava ao Rio tinha o deslumbramento da novidade. Começava pelo povo na rua, pelas vitrinas das lojas, pela roupa das mulheres. Ah, a roupa das mulheres. A provinciana mal punha o pé no cais sentia-se uma estrangeira exótica, com a sua roupa diferente ― e o sapato, o penteado, o chapéu.

Hoje, no mais longínquo sertão as moças se vestem pelo figurino de Hollywood — talvez com uns toques de Brigitte Bardot ― tão igual, tão igual que dá bocejos, quando não dá risadas.

Os concursos de beleza, então. As meninas são tão estereotipadas, tão decalcadas umas pelas outras, tão estandardizadas, dentro de dois ou três tipos — loura fria, morena tropical, ruiva vibrante, que parecem bonecas saídas de uma linha de montagem — onde só variam a cor dos cabelos, dos olhos, da pele — da pele não, pois todas, brancas ou morenas, procuram ficar tostadinhas como biscoitos, o que entre parênteses é muito lindo. Nem mesmo na roupa se diferenciam. Ou antes, muito menos se diferenciam na roupa, se justamente é a roupa elemento principal da padronização. E se fossem só as misses. Mas ande-se em Copacabana e a impressão que se tem é que um colégio soltou as suas meninas pelas ruas do bairro sul. Tudo de blusa de listra horizontal e calça comprida colante — ou saia branca de tergal. Os penteados, os colares, a pintura, os sapatos (agora no inverno é mocassim) são também uniformes. E note-se o traço mais curioso da coisa — elas têm prazer de se sentir idênticas, fazem questão de parecer reproduções fotográficas do mesmo modelo, adoram ser uma unidade num rebanho uniforme. Alguma que venha diferente, mesmo elegante, mesmo bem vestida, choca ― só mesmo porque é diferente.

Parece que morreu aquela preocupação feminina da originalidade, que fazia as mulheres ricas pagarem fortunas por um “modelo” único de grande costureiro, ou as moças pobres rasgarem a página escolhida no figurino da modista, para evitar outras cópias.

E a uniformização vai se estendendo às mesas ― ah, aquele eterno arroz pilaf, aquele suprême de frango, o sempiterno coquetel de camarões; parece que já passou da moda o estrogonofe, meu Deus quantos estrogonofes cada um de nós não terá jantado na casa de um e de outro ou nos botequins de gente bem?

Será que a humanidade está marchando mesmo para a padronização geral, será que o fim próprio do aperfeiçoamento da técnica, o progresso da indústria, o avanço danado da ciência vai nos levar a isso? Tudo parecido, como andorinhas no fio ou misses na passarela?

Dirão os “nacionalistas” que isso é efeito da civilização americana, niveladora, sem imaginação nem originalidade. Mas, pelo que sei, os países ditos “socialistas” também adoram a padronização. Contam até, elogiando, que na China todas as mulheres andam uniformemente de calças azuis...

A fabricação das utilidades em série é talvez a razão principal desse condicionamento ao uniforme, dessa renúncia ao gosto individual, que caracteriza a nossa idade. Acaba-se o artesão, só se obtém o produto de fábrica, lançado no mercado aos milheiros e milhões. São os móveis exatamente idênticos, nos apartamentos idênticos também. As televisões, os rádios, as geladeiras de modelo único ― ou quase único. E em tudo predominando aquele mau gosto inalterável ― que como um gás venenoso permeia todo o mundo civilizado. Passe por uma aldeia italiana, espie a sala da frente, de uma das casas, não tem que tirar Nilópolis ou Vigário Geral: a mobília em folheado, o caixão do rádio na sua mesinha, o quadro da parede, os paninhos bordados, o tapete do chão. É universal, é a internacional do mau gosto.

A padronização chegou agora ao corpo humano. Com a dietética, a cirurgia plástica, a ginástica ― tudo vai se acomodando a um modelo talvez ideal, sim ― mas único. E as falas também se padronizam, o cordão puxado pelos locutores de rádio que desdenham as peculiaridades de pronúncia regional e recitam todos num linguajar artificial, pedante e detestável, carregado de erres, de esses, de ênfase nas tônicas.

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De primeiro, todo provinciano que chegava ao Rio tinha o deslumbramento da novidade. Começava pelo povo na rua, pelas vitrinas das lojas, pela roupa das mulheres. Ah, a roupa das mulheres. A provinciana mal punha o pé no cais sentia-se uma estrangeira exótica, com a sua roupa diferente ― e o sapato, o penteado, o chapéu.

Hoje, no mais longínquo sertão as moças se vestem pelo figurino de Hollywood — talvez com uns toques de Brigitte Bardot ― tão igual, tão igual que dá bocejos, quando não dá risadas.

Os concursos de beleza, então. As meninas são tão estereotipadas, tão decalcadas umas pelas outras, tão estandardizadas, dentro de dois ou três tipos — loura fria, morena tropical, ruiva vibrante, que parecem bonecas saídas de uma linha de montagem — onde só variam a cor dos cabelos, dos olhos, da pele — da pele não, pois todas, brancas ou morenas, procuram ficar tostadinhas como biscoitos, o que entre parênteses é muito lindo. Nem mesmo na roupa se diferenciam. Ou antes, muito menos se diferenciam na roupa, se justamente é a roupa elemento principal da padronização. E se fossem só as misses. Mas ande-se em Copacabana e a impressão que se tem é que um colégio soltou as suas meninas pelas ruas do bairro sul. Tudo de blusa de listra horizontal e calça comprida colante — ou saia branca de tergal. Os penteados, os colares, a pintura, os sapatos (agora no inverno é mocassim) são também uniformes. E note-se o traço mais curioso da coisa — elas têm prazer de se sentir idênticas, fazem questão de parecer reproduções fotográficas do mesmo modelo, adoram ser uma unidade num rebanho uniforme. Alguma que venha diferente, mesmo elegante, mesmo bem vestida, choca ― só mesmo porque é diferente.

Parece que morreu aquela preocupação feminina da originalidade, que fazia as mulheres ricas pagarem fortunas por um “modelo” único de grande costureiro, ou as moças pobres rasgarem a página escolhida no figurino da modista, para evitar outras cópias.

E a uniformização vai se estendendo às mesas ― ah, aquele eterno arroz pilaf, aquele suprême de frango, o sempiterno coquetel de camarões; parece que já passou da moda o estrogonofe, meu Deus quantos estrogonofes cada um de nós não terá jantado na casa de um e de outro ou nos botequins de gente bem?

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Dirão os “nacionalistas” que isso é efeito da civilização americana, niveladora, sem imaginação nem originalidade. Mas, pelo que sei, os países ditos “socialistas” também adoram a padronização. Contam até, elogiando, que na China todas as mulheres andam uniformemente de calças azuis...

A fabricação das utilidades em série é talvez a razão principal desse condicionamento ao uniforme, dessa renúncia ao gosto individual, que caracteriza a nossa idade. Acaba-se o artesão, só se obtém o produto de fábrica, lançado no mercado aos milheiros e milhões. São os móveis exatamente idênticos, nos apartamentos idênticos também. As televisões, os rádios, as geladeiras de modelo único ― ou quase único. E em tudo predominando aquele mau gosto inalterável ― que como um gás venenoso permeia todo o mundo civilizado. Passe por uma aldeia italiana, espie a sala da frente, de uma das casas, não tem que tirar Nilópolis ou Vigário Geral: a mobília em folheado, o caixão do rádio na sua mesinha, o quadro da parede, os paninhos bordados, o tapete do chão. É universal, é a internacional do mau gosto.

A padronização chegou agora ao corpo humano. Com a dietética, a cirurgia plástica, a ginástica ― tudo vai se acomodando a um modelo talvez ideal, sim ― mas único. E as falas também se padronizam, o cordão puxado pelos locutores de rádio que desdenham as peculiaridades de pronúncia regional e recitam todos num linguajar artificial, pedante e detestável, carregado de erres, de esses, de ênfase nas tônicas.

Sei que vejo, num pesadelo, o mundo dos nossos netos ― todos belos, saudáveis, mas parecidos, parecidos como gêmeos, morando em ruas iguais, em cidades iguais, vestidos de roupa igual, falando um dialeto só, feito abelhas em colmeia, térmitas no seu cupim.

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