Engraçado, os felizes nunca escrevem. Só procuram a gente os tristes, os fracassados, os que teimam em escalar obstáculos, os ambiciosos, os ressentidos.
No fundo, todos eles não são nada disso; – alimentam a esperança apesar de tudo, têm aquela certeza íntima de que uma fórmula secreta para a felicidade e para o êxito – a questão é apenas descobri-la. E quem sabe Fulano ou Beltrano a conhecem? Então escrevem. Ou lêem aqueles ingênuos livros americanos, intitulados Como triunfar na vida, Como fazer amigos, Como vencer no amor – ou A vida começa aos 40 – feitos todos, aparentemente, para leitores de quociente intelectual abaixo dos dez anos de idade, mas que surpreendentemente são devorados por adultos de todas as idades. Sinal de que não são tão adultos quanto parecem.
Eu por mim confesso àqueles que me escrevem, pedindo consolo ou esperança, que não conheço fórmula nenhuma. Ignoro-as todas, e quando sou infeliz ou quando me entrego ao desespero, faço-o com abundância de coração, me afundando na mágoa e no desengano como quem se afoga. E só no fim da crise, quando passada a fase embriagante da tristeza, caio naquele estágio mais suave que os ingleses chamam “self pity”, e ponho-me a pensar que tamanha provação afinal de contas é desmedida, que nada fiz de tão especial para a merecer, que este mundo é um erro imenso, mal-arrumado e prenhe de absurdas injustiças, então é que recorro à minha panaceia particular, e, depois de usá-la, tenho pelo menos um sorriso na boca para me ajudar na volta ao fardo de viver. A panaceia, – sim, confesso que a tenho – é uma passagem do velho Voltaire – algumas linhas do capítulo de “Conclusão”, do Candide.
O caso é que tontos, Candide e seu mestre Pangloss ante a sucessão de desventuras e males que os flagelou neste “melhor dos mundos”, sentem-se um hesitante, o outro embaraçado, e resolvem procurar autoridade que lhes devolva o perdido otimismo. – E segue-se então a passagem aludida, que peço vênia para traduzir:
“Havia nas vizinhanças um celebríssimo dervixe, conhecido como melhor filósofo da Turquia. Foram os nossos amigos consultá-lo. Pangloss tomou a palavra:
– Mestre, aqui vimos pedir-lhe que nos explique por que motivo foi criado esse estranhíssimo animal que é o homem.
E dervixe lhe observou:
– Por que te preocupas com isso? É da tua conta?
– Mas, reverendíssimo padre – interferiu Candide, – há excesso de mal neste mundo.
– E que importa, retrucou o dervixe – que exista mal ou que exista bem? Quando sua alteza ordena a um navio que faça uma viagem ao Egito, estará por acaso preocupado com o conforto ou o desconforto dos ratos que vivem a bordo?
– E então, que devemos fazer? – indagou Pangloss.
– Calar a boca, – foi a resposta do dervixe.
Mas Pangloss insistiu:
– Aí, e eu que me regozijava a pensar que iria discorrer um pouco com vossa reverendíssima a respeito dos efeitos e das causas, a respeito do melhor dos mundos, de origem do mal, da natureza da alma e da harmonia preestabelecida!
Escutando aquelas palavras, o dervixe deu-lhe com a porta no nariz.”
*
Grandes, humildes palavras. Realmente, que pode importar ao dono do navio, se os ratos de bordo passam mal ou passam bem? E que outra coisa conseguem os Pangloss deste mundo, (ou os Hamlet, que são Pangloss pelo avesso) senão levarem eternamente com a porta no nariz? Indagam, indagam, e sempre levando portas à cara, até que levam com a porta do túmulo, a qual lhes encerra as indagações.