Conheci-o no Rio, já há alguns anos; chamava-se Jorge, tinha a cor preta, a alma lírica, de profissão era encerador, mas literato de nascimento. Contava uns vinte anos, absurdamente vividos, passados todos entre as misérias e os pináculos da vida ― entre o chão que ele raspava e lustrava o dia inteiro e as estrelas do céu que contemplava à noite, de braço com a namorada.

 

O pior para ele é que Deus lhe dera realmente talento ― o tal diabólico poder da criação, que constantemente o inquietava e o fazia sofrer. A profissão manual o irritava; como uma escravidão injusta. Com que ânimo se pode pegar num escovão e polir assoalhos, quando um demônio interior pede é papel e lápis, para evocar reminiscências e dramas? Além disso, o meio onde era obrigado a viver ― aliás o meio onde nascera e vivera sempre — o enchia de desespero. Tudo lhe era hostil; a profissão, os parentes, os colegas, e, com especialidade, os porteiros dos apartamentos, onde morava a sua freguesia. Escrevendo, Jorge cobria de sarcasmos os portugueses fardados que exibiam a libré e a arrogância à entrada dos elevadores:

 

“.... No andar térreo, junto ao elevador, Mário viu um português pançudo, de óculos. Trajava uniforme azul com letras pretas na gola do dólman e passava os dias ali, abrindo e fechando a porta dos elevadores, servilmente, como se pedisse esmolas...”

 

Isso era um trecho de conto e ao mesmo tempo a expressão dum ressentimento feroz. É que o porteiro não sabia enxergar em Jorge o intelectual, não via a flama que ele trazia nos olhos, não sabia ler a mensagem daquela cara atrevida e patética; só via nele o ex-escravo, o pária; e berrava: “Toca pela entrada de serviço”!

 

Jorge, magoado na sua dignidade de intelectual, rebelava-se; por que a entrada de serviço? Ele não estava entrando ali como profissional, como encerador; viera como visita à casa de um colega.

 

E me entrava de porta a dentro furioso, esbaforido, tímido e indignado. Já nem ousava mais me estender a mão: a investida do porteiro abalara todas as convicções de igualdade que lhe vinha tentando incutir a sua recente consciência de não ser inferior a ninguém.

 

Mas vingava-se. No primeiro conto que escrevia, traçava logo a cruel caricatura do porteiro, pesado e feroz, dentuço e logrado, como o vilão gigante Brutus nos filmes do marinheiro Popeye.

 

Ninguém podia estar bem a par de todas as paixões de Jorge; ele falava pouco de si ― a arte é que o traía. Num dos seus contos, por exemplo, vinha a confissão desolada de uma dessas paixões ― o baralho, ou mais especificamente o sete e meio.

 

“.... Esta vida é um inferno quando não se pode resistir à tentação”, escrevia ele, como comentário. E o fato é que Jorge evidentemente nunca resistia. Dava-me a impressão de que era, no seu meio, uma espécie de enfant perdu, uma espécie de Villon crioulo. Atirava-se à vida, ao demônio e às suas pompas com insolência, quase com desespero; e tinha depois furiosas crises de arrependimento. Ao escrever, falava sempre no “lar perdido”, evocava constantemente uma casa abandonada de subúrbio, onde foi em peregrinação e chorou. E quando se referia a namorada, gabando-lhe os “braços macios”, a “meiguice dos olhos mansos”, logo acrescentava que “não a merecia”, que às vezes “sentia vergonha de se mostrar a Alzira”...

 

Tinha ele um amigo, funcionário público, que o descobrira para a literatura, dera-lhe os rudimentos de gramática, que Jorge ia usando o melhor que podia. Esse amigo é que suportava as irregularidades do rapaz, o seu humor vagabundo, os seus erros, os seus arrependimentos.

 

Porque Jorge em geral só me procurava como homem de letras, a bem dizer. Nada de conversas íntimas, nem confidências. Falávamos em livros, em versos, eu lhe dava conselhos sobre a cozinha do ofício, lia os seus trabalhos, trocávamos opiniões. Ele escutava, discutia às vezes, mas em geral não atendia. Porque é preciso acentuar mais um ponto a favor de Jorge: ele era furiosamente autônomo. Podia aprender português, sujeitar-se a algumas regras, mas sob condições. Escutava as críticas, mas com ceticismo. Escrevia como queria e quando queria. Às vezes mergulhava na sua Sodoma e sumia-se por muito tempo. Entregava-se aos espíritos do mal, esquecia a mensagem, apagava a flama dos olhos, era apenas um malandro como mil, enterrado até aos ombros nos bas-fonds da cidade, nesse mundo que os colegas literatos ignoravam, mas que para Jorge era o seu berço, o seu país.

 

Quando afinal voltava e alguém lhe fazia perguntas, ele sorria com a sua grande boca infantil e humilde, encolhia os ombros. Que é que fez, que é que viu? Nada, andou por aí... E a gente ficava pensando na sua confissão desesperada: “Esta vida é um inferno quando não se pode resistir à tentação”...

 

Dias depois trazia um conto. Bom ou mau, cheio de irregularidades e tropeços, como ele próprio. Emanado da sua jovem alma de negro, solicitada pelo mundo e pelo mundo ferida, maltratada pelas absurdas contradições desta vida, que para ele era bem pior do que para nós.

 

A sorte é que apesar de sofrer com as investidas da vida, Jorge não a temia. Os nossos fantasmas pouco valiam para ele. Miséria e vício, bem e mal... Jorge nascera entre essas coisas.

 

As ruelas escusas, as casas de cômodo infetas, o desemprego, as manhãs sem níquel, a perda de pai e mãe, a solidão moral, meu Deus! Eram o seu pão de cada dia. E ele utilizava tudo isso, pintava-os em quadros de cruel realismo, ― às vezes seu quarto: “dois caixotes de bacalhau e a mala velha, viveiro de baratas”, ― outras vezes uma briga de lavadeiras, no pátio do cortiço.

 

Quando os tempos andavam piores, ou os demônios do sete e meio o haviam possuído por mais tempo, Jorge vinha então me fazer uma visita “de profissional”. Entrava deliberadamente pela porta de serviço, apanhava o sapólio e a flanela e punha-se a limpar os vidros da sacada. Eu sentava com o meu tricô numa cadeira próxima e começávamos a discutir nossos problemas.

 

Pouco a pouco Jorge esquecia o vidro e ficava de mão ao ar, dizendo coisas, fitando o panorama da baía, o sol, o céu e a fumaça dos navios, lá em baixo.

 

Eu parava então de falar e punha-me a fitá-lo. Havia uma estranha luz nos olhos de Jorge, uma estranha sede de vida na sua face dramática e ingênua. Olhava o mundo do alto e sorria. Era sempre assim que ele queria estar, fora para isso que nascera.

 

E via-se então que ele esquecia a miséria e o pecado; com o mar e a cidade aos seus pés, sentia-se quase um rei.

 

Depois baixava os olhos, espiava desconfiado o meu sorriso, lembrava-se de que estava ali “como profissional”, e voltava a esfregar os vidros, energicamente.

rachel-de-queiroz
x
- +