
Boris Kochno (título atribuído), Rio de Janeiro-RJ, circa 1946. Foto de Thomaz Farkas/ Acervo Instituto Moreira Salles.
Em 1945, a revista Diretrizes recebeu uma carta de leitor direcionada ao cronista Vinicius de Moraes. Ou, pelo menos, foi o que disse o poetinha – tão comum quanto leitores escreverem cartas para cronistas era cronistas inventarem cartas de leitores. A veracidade, no fim das contas, nada importa para a literatura. Fato é que a missiva em questão, assinada por um tal de Próspero Calvo, o mais sugestivo dos nomes, trazia queixas a respeito da comunicação entre fregueses e barbeiros. Ele pedia que, diante da incapacidade de explicar com exatidão o corte desejado aos profissionais da tesoura, se estabelecesse uma linguagem comum.
O drama do sujeito, contado em pormenores na crônica “O senhor Calvo e os cabeleireiros”, era passar “um amargo quarto de hora com explicações minuciosas e inúteis” ao barbeiro, que executava o pedido como bem entendia, já que “as palavras e expressões usadas nos salões têm significado diferente” para cada um. “Aparar o cabelo” podia significar tanto cortar em volta das orelhas quanto raspar até o crânio. Insatisfeito, o cliente demorava a voltar, protelando o reparo das madeixas (ou o que delas tenha restado) mas acumulando reclamações da esposa.
Naturalmente, o remédio seria a fidelidade às lâminas de um único profissional. Mas o que soa simples para nós, conectados por mensagens instantâneas, era um desafio na década de quarenta: vira e mexe o cabeleireiro mudava de estabelecimento, de onde saía brigado com o patrão, que não informava as novas coordenadas do ex-funcionário. Nesses casos em que era necessário construir do zero uma relação entre barbeiro e barbeado, Vinicius recomendou firmeza ao seu leitor: “o freguês deve chegar, escolher seu barbeiro com uma certa displicência e ditar suas ordens cortesmente, mas de modo batata, olhando o barbeiro nos olhos”. E sem trastejar – do contrário, corria o risco de virar um mero “amolador de navalha”.
O imbróglio capilar de Paulo Mendes Campos não era com pessoas, mas com coisas. Em “Pentes e outros objetos”, o cronista conta que, pelo menos duas vezes por mês, comprava pentes “em quantidades industriais”. Seu fornecedor chegou a pensar que ele estivesse subestabelecendo seu comércio, comprando mercadoria para revender mais caro. Mas é que em sua casa, como aliás em tantas outras, os pentes sumiam.
Havia sempre uma operação ostensiva de distribuição de pentes entre os moradores da casa, em porções “segundo o temperamento e a distração de cada um”. Outros tantos eram dispostos em gavetas, armários e mesas de cabeceira. Feita a partilha, Paulo reunia solenemente toda a família, tirava do bolso um pente singular, de fácil distinção, e anunciava: “Este é o meu pente; este ninguém usa; neste, sob pretexto algum, ninguém toca”. Mas os dias passavam e os pentes desapareciam todos, inexplicavelmente. E lá ia de novo o cronista, descabelado, comprar um novo carregamento.
Embora a idade tenha feito avançar as entradas de Paulo Mendes Campos, não há registro de que ele tenha se considerado integrante da categoria dos carecas – ao contrário de José Carlos Oliveira, um representante digno da classe, que protegeu seus colegas na crônica “Em defesa dos carecas”. Escrita em 1974, à luz da notícia de que a ciência teria descoberto um promissor tônico capilar, Carlinhos supunha que a novidade suscitaria reações diferentes entre os dois grupos de calvos: os neuróticos e os conformados.
O neurótico faz de tudo para disfarçar a calvície, “razão pela qual a sua hipocondria se circunscreve à caixa craniana”. Compra todos os remédios milagrosos e se penteia de modo a aproveitar ao máximo os tufos, esticando-os até o limite. Alguns se rendem à humilhação da peruca, outros aderem ao boné. O conformado, por outro lado, não está nem aí. Só depois de alguém na rua lhe gritar “ô, careca!” é que ele admite sua parca situação capilar.
Carlinhos se filiou ao segundo grupo: “pertenço à geração tola, ignorante, dos machões que não podiam tocar piano nem lavar a cabeça com xampu”, explicou-se. “Já não tenho idade para voltar”, refletiu, “e nem me desgosta o espetáculo da minha calvície progressiva”. O anúncio da ciência de mais um tônico promissor não fez sua cabeça, portanto. “Passemos a algum problema verdadeiramente grave, como o da cura do câncer”, sugeriu o cronista – careca, mas coberto de razão.