
Nuvens, Chácara Arara, Londrina-PR, 1948. Foto de Haruo Ohara/ Acervo Instituto Moreira Salles.
“Não consigo me lembrar exatamente do dia em que o outono começou no Rio de Janeiro”, escreveu Rubem Braga em crônica de 1935. Mas onde o outono despontou, o cronista sabia bem. Ele estava a bordo do bonde na rua Marquês de Abrantes, no bairro do Flamengo, quando uma folha seca atingiu sua face esquerda. Atrás dessa folha veio um vento, “e era o vento do outono”.
Braga esticou o olhar para dentro dos botequins na esperança de encontrar um relógio de parede. Queria registrar o momento exato da chegada da estação, mas não encontrou ponteiros. Ao seu lado, um homem “decentemente vestido” tinha cara de quem possuía relógio. O cronista perguntou as horas, 13h48, agradeceu e murmurou: “Chegou o outono”. Ainda muito ocupado com o verão, o homem do relógio não chegou a se comover.
Em 1981, José Carlos Oliveira escreveu sobre um outono de Paris, onde passou uma curta temporada. Flanando pelo cais de Montebello, pela ponte de Saint-Michel e pela catedral de Notre-Dame, “batido pela brisa gelada do meio da tarde, sob um céu azul esmaecente”, sentia-se fisiologicamente feliz – ou melhor, hiperestasiado naquela “inebriante atmosfera de outono”.
A felicidade do corpo, no entanto, não é garantia de felicidade do espírito. Sozinho na orla do Sena, o escritor tinha medo dos homens bêbados que se aproximavam “com caretas inamistosas” na noite, com imensas angústias intraduzíveis. Sentia-se apartado de tudo, “e nesse isolamento, quanto mais os dias passam, quanto mais me diluo nessa paisagem humana, mais me aproximo dos murmúrios do meu próprio coração”, refletiu em “Bonjour, alegria”.
Ouvir o próprio coração sussurrar em português naquela solidão francesa tinha algo de idílico. O escritor vinha há algum tempo buscando a essência dessa palpitação em “sítios apropriados à meditação”. Desejava ouvir os seus batimentos límpidos, cristalinos, e com isso descobrir a melodia secreta da sua vida. Mais alguns meses no outono de Paris, desconfiava, e seria capaz de enfim encontrar o que buscava dentro de si. Mas sabia que não tinha tempo, e logo seria preciso retornar para a solidão primaveril de seu país.
Três décadas antes, Carlos Drummond de Andrade escreveu sua “Conversa outonal” em março de 1954. Dado ao “ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo”, o poeta tinha olhos treinados para observar detalhes da natureza. Numa manhã nevoenta, reparou que uma das árvores de sua rua já não estava verdejante. Ela ostentava “algumas folhas amarelas” e outras “estriadas de vermelho”, num degradê que chegava até o marrom. Também as amêndoas se preparavam “para ganhar uma coloração dourada”.
O cronista resolveu perguntar-lhe o porquê de ostentar cores diferentes de suas irmãs. “Não vês? Começo a outonear”, respondeu a árvore, cumprindo seu rito vegetal. Mas sozinha, antes das outras? “Anda tudo muito desorganizado”, ponderou com uma paciência de planta, “e como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno”.
“Somos todos assim”, concluiu o escritor. Mas a árvore explicou que não. Que os homens, com seu outono “manifesto e exclusivo”, colhem os seus frutos “numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva”. O outono, portanto, é mais uma estação da alma que da natureza. Um estado de espírito. “Outoniza-te com dignidade, meu velho!”, recomendou a sábia árvore, sobrevivente de muitos, muitos outonos.