Imagens cariocas
Um arqueólogo que faz escavações na Biblioteca Nacional (em jornais velhos, entenda-se) mostra-me um volume de 1908 da Gazete de Notícias, com esta pergunta feita aos escritores de então: “Qual a rua mais bela do Rio”? Pergunta que, nos primeiros tempos do Rio limpado da morrinha imperial pelo prefeito Passos e por Osvaldo Cruz, significava a euforia do carioca em face dos novos aspectos de sua cidade. Com esse estado de espírito, era de esperar que as respostas se fixassem na avenida Central, recentemente aberta, e símbolo da transformação urbana. Pois a avenida, ainda pouco vivida talvez, só teve um voto, o de Euclides da Cunha. Achou-a mais bela do que as outras “pela variedade de estilos” e pelo que demonstrava “de energia, de progresso, de esforço”.
Medeiros e Albuquerque escolheu a rua Uruguaiana, que Passsos tornara mais larga. Mas todos os demais escritores se manifestaram em favor de vias públicas de feição estática, ligando- as talvez a circunstâncias da vida emocional deles próprios.
Se o leitor de domingo se interessar por isso, saiba que mestre João Ribeiro – homem viajado, que podia comparar e julgar – achava o Largo da Carioca o lugar mais bonito da terra, com o seu chafariz e o seu convento ao fundo. Os poetas Mário Pederneiras e Oscar Lopes tinham encantos pela rua S. Clemente. Helios Seelinger, pintor que vemos ainda à porta do Museu Nacional de Belas Artes, a testemunhar a jovialidade do velho Rio, era homem de operar na zona norte, e teria sua razões para preferir a rua Haddock Lobo.
– Para mim, é o rua do Roso – disse Coelho Neto.
Onde ele morava. E é bom quando podemos achar mais bonita de todas a rua onde moramos. O mesmo sentimento inspirou a Alberto de Oliveira resposta imediata: a rua Abílio (“a casa que foi minha hoje é casa de Deus”); lembrou-se, depois, da avenida do Mangue (“ser palmeira! existir num píncaro azulado”) e achou que ela seria uma maravilha se tivesse casas dignas; afinal, optou pela rua da Passagem, aparentemente sem apoio em qualquer verso.
Rocha Pombo, o professor Pedro do Couto e o pintor Bernardelli revelaram sensibilidade bastante para eleger a rua Paissandu, que anos mais tarde iria projetar, no poema “La messe là- bas”, de Paul Claudel, “ces palmiers dessinés comme sur du verre”.
Mas Paissandu empatou com Senador Vergueiro, que mereceu o voto de Olavo Bilac, Guimarães Passos e Rodolfo Amoedo. Bilac falou por todos: “Cada curva de Senador Vergueiro é um aspecto novo; as ruas que a cortam deixam ver pedaços de mar e pedaços de montanha”.
Não sei se hoje ainda terá cabimento perguntar qual a rua mais bela do Rio. Será talvez a mais escondida de todas, aquela que não sofreu o abalo de ver altear-se, ao lado de casinhas antigas, imensos blocos de concreto, espandongado-lhes a correlação de volumes; que não se converteu em pista de corrida de lotações; que não foi conspurcada por uma feira-livre; que conservou suas árvores, seu brando rumor, sua dignidade: que guarda ainda um cheiro ou sabor de coisa carioca e, sendo rua de morar, seja também rua de andar, e não de correr, fugindo da morte. O Rio cresceu tanto, e de tantos modos malucos que suas ruas foram amassadas pelo progresso. E a noção antiga de rua desapareceu. Até que os urbanistas implantem outra noção – que existe, mas não se aplica – vivemos dentro de uma “obra” em andamento. Mesmo assim, certos pedaços de rua se recusam a ficar feios ou a perder o caráter – e neles se espelha a face heroica do Rio.