Diz que toda mulher gosta de farda, mas há fardas e fardas. Hoje em dia as fardas têm decaído muito; soldado já forma de macacão, com as mangas arregaçadas. Mas entre as fardas que se conservam como dantes, indubitavelmente a mais bonita é a de fuzileiro naval. Não há nada que se compare a um naval de calças brancas, túnica vermelha e gorro de fitinhas.

Logo depois dos navais vêm os bombeiros. Tem gente que prefere os Dragões da Independência; eu não. Os dragões só usam a farda bonita uma vez na vida outra na morte e por isso, quando a envergam, a gente sente logo o “travesti”, o constrangimento com as botas altas, com o capacete, o penacho – parecem artistas representando a caráter. Os bombeiros ostentam no trivial todas as suas galas e usam-nas, portanto, com aquela naturalidade que só o hábito dá. Para mim, um bombeiro fardado de ponto em branco é mais bonito até do que um general com todas as suas dragonas; mais bonito que um imortal com fardão da Academia; pensando bem, mais bonito até do que um almirante. E acrescente-se o esplendor dos carros vermelhos, a algazarra das sirenes, os aparelhos de metal lustroso, os exercícios arriscadíssimos – é uma mistura fascinante de circo e de soldado.

Conheço bem a vida dos bombeiros, seus exercícios, suas canções. De certo modo posso dizer que já morei com eles. Foi no ano de 1937, quando a Junta do Estado de Guerra e eu, lá no Ceará, tivemos séria divergência a respeito de opiniões políticas. Eu era uma só, os da Junta eram três e mandavam na polícia; sendo eu pois a parte fraca na discussão, me prenderam. Concluíram, entretanto, que ser literata é quase ser bacharel e por isso me concederam prisão em quartel, em vez da cadeia pública; deram-me por mensagem a imensa sala de cinema dos bombeiros, que há tempos não funcionava. Ficava o cinema no primeiro andar; no térreo era a garagem dos carros do fogo. Defronte o pátio dos exercícios e no extremo oposto do pátio o alojamento do pessoal. Incomunicável, minha distração era da janela assistir os exercícios dos rapazes do fogo, ouvir as cantigas que eles entoavam marchando, das quais a mais bonita começava assim: “Ao soar dos alarmes ligeiros!”. Disseram-me que o autor desse hino é um oficial de bombeiros daqui do Rio.

Quando de noite havia alarme de fogo, parecia que na calma do quartel um vulcão explodira. Tocava o sino, eles desciam aos cachos nos escorregadores dos alojamentos, os motores dos carros parece que se movimentavam sozinhos, e num tempo recorde – (meio minuto ou um minuto e meio, nem sei mais), só ficávamos naquela solidão eu, lá de cima, espiando pela vidraça e a sentinela danada da vida, andando para lá e para cá, mudando de vez em quando a arma do ombro.

Uma empregadinha da família do comandante, o qual morava paredes-meias com o quartel, era o meu elemento de contato com o mundo exterior. Dizia-se ela a minha ordenança; na verdade, prestava-me os serviços comuns de uma ordenança: limpava-me os sapatos, varria o chão e fazia a cama, esquentava o rancho que me mandavam de casa, trazia-me um ou outro objeto de contrabando naquela incomunicabilidade, papel, livros e até mesmo um bilhete da família. Chegou a me arranjar uma bola, para me distrair naquela sala imensa, onde eu me sentia tão perdida quanto um pinto enjeitado numa criadeira vazia.

Coitada da garota, vivia e morria pelos bombeiros, mas eles nem a olhavam. É verdade que ela tinha as pernas tortas – joelho d’água, fosse o que fosse. Mas a cara era bonitinha e compensava; além disso ela costumava esperar os moços na janela, só com busto aparecendo e, assim, iludia muito bem. Decerto os rapazes lhe fugiam porque bombeiro só pode amar para o mau fim e a pequena era cria da casa do comandante. Pois é, bombeiro pode querer bem mas não pode casar. Decerto acham os chefes que assim convém mais, dados os riscos da profissão, para que o soldado do fogo não se acovarde e recue na hora do perigo, pensando na mulher e nos filhos. Ou para não sobrecarregar o Estado com pensões a órfãos e viúvas. A consequência dessa lei é que, solteiros por decreto e escolhidos a dedo entre os mais fortes e grandes, atletas por obra do exercício constante, conscientes da sua superioridade física, os bombeiros são um arraso nas empregadas domésticas, num raio de vários quarteirões em torno do quartel. Só a minha ordenança – ai dela! – escapava.

Passou-se algum tempo.

O desgosto da pequena crescera tanto, tanto, vendo-se alvo daquela exceção humilhante e, somado ao mal dos joelhos foi-lhe botando tais complexos, que ela resolveu liquidar o caso de uma vez por todas.

Esperou a hora em que os rapazes estavam do outro lado, fazendo ginástica, e entrou no pátio. Chegou à torre de exercício, alta como um arranha-céu; sem temor, agarrou-se às escadinhas de ferro que os soldados usam e fez aquela escalada vertiginosa, exigindo tudo que podiam dar de si seus pobres joelhos doentes. Um dos bombeiros, lá de longe, ergueu ocasionalmente o olhar para a plataforma da torre e divisou aquele vulto de saia curta, pernas de cambota bracejando, numa dança. Debandou a ginástica, o tenente-instrutor correu para a torre com o apito na boca, e acompanhado de todo o pessoal. Só um dos rapazes teve a ideia de ir apanhar a rede de pano dos salvamentos. Lá de cima a pequena gesticulava, chegava à beira da plataforma, recuava, gritava coisas incompreensíveis. Por fim atirou-se. Mas atirou-se a tempo, porque, enquanto demorava naquela agitação, o rapaz teve tempo de chegar com a rede onde os bombeiros acolheram a menina que vinha do céu, de asas abertas como passarinho. Caiu de mau jeito e desmaiou.

Ao tornar a si, viu-se na enfermaria do quartel deitada numa cama de bombeiro, com um bombeiro lhe chegando água à boca e um grupo compacto deles contemplando-a assustados, da porta. E quando o tenente vendo-a abrir os olhos, perguntou severo: “Está melhor, menina?” – ela sorriu, lembrou-se não sei por que de uma estampa do Anjo da Guarda que ganhara no dia da sua primeira comunhão e repetiu em voz alta a frase que vinha impressa no verso do santinho:

– Recordação do dia mais feliz de minha vida.

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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