Sois provinciano? Então, desde infante conheceis a lenda dourada do Rio, a louvação da cidade maravilhosa; e participais da adoração humilde do pequeno homem da província pela grande cidade e os seus habitantes. Nos serões, ao redor da mesa, escutáveis os mais velhos que descreviam o trem do Corcovado e o bondinho do Pão de Açúcar, e as barcas da Cantareira, e os esplendores perdidos da rua do Ouvidor e como é que os bondes passavam outrora por dentro da Galeria Cruzeiro, e como foi que o prefeito Passos rasgou a avenida Rio Branco, então avenida Central. E a história dos palácios da cidade, e das suas igrejas e seus conventos e do bairro Serrador.  

 

Aos poucos, se renovam os elementos da lenda, e a ela foram se incorporando a derrubada do Castelo, o edifício de A Noite, e os arranha-céus de Copacabana, que muitos recordam como simples areal com uma capelinha solitária; vieram em seguida a avenida que o prefeito teima em não chamar Castro Alves, a torre da Central, os palácios dos ministérios, o banheiro do ministro da Fazenda.  

 

Durante a viagem por mar, da sua terra até aqui, a preparação psicológica do provinciano ainda mais se agrava. Desde a passagem de Cabo Frio, que é uma espécie de avant-première. Depois o taifeiro batendo à porta dos camarotes e anunciando que já se avista a “entrada”. E a apanha febril de binóculos e codaques, para o testemunho técnico e instrumental, que os simples olhos de carne não bastam. E os passageiros profissionais e repetentes explicando aos primários os nomes dos acidentes geográficos, a localização das fortalezas, identificando as primeiras torres e os primeiros telhados. E nunca falta aquele senhor idoso que testemunhou as proezas de João Cândido e sabe de cor todo o itinerário do Almirante Negro. No salão engalanado os músicos executam a Cidade maravilhosa. E assim, quando o navio atraca e o viajante pisa o cimento do cais, já está tão atuado que sente vontade de se ajoelhar e beijar aquelas pedras ilustres.  

 

Aos poucos é que se vai desiludindo. Passada a primeira semana, sofre uma impressão curiosa: de que aquele povo não merece aquelas pedras. Tanto edifício bonito, tanto mármore e tantos andares superpostos, e afinal para quem? Quem os entes superiores povoando aqueles palácios, onde os super-homens e as deusas? Não sei o que esperava encontrar o provinciano ― talvez atenienses e romanos de vestes flutuantes, falando grego e latim. ― Sei é que aquilo que encontra o decepciona e o enche de desdém. Genolino Amado, com grande espírito e malícia descreveu o choque do literato estadual que comparece pela primeira vez a uma roda de livraria entre as sumidades da pena, e escuta essas sumidades discutindo não Proust nem Kierkegaard, mas futebol (a propósito e sempre: Viva o Vasco, campeão de terra e mar!). Vai às câmaras, às assembleias, às igrejas, aos teatros e às conferências, e a sua pergunta é sempre a mesma: Afinal que tem esta gente mais do que nós na nossa terra para merecer isto tudo?  

 

E há ainda a lenda da beleza e da elegância das mulheres e a lenda dos ternos impecáveis dos homens, baseada num dos axiomas da província: “No Rio, a roupa é o cartão de visita do cavalheiro...”. Pode ser, pode ser. Mas então anda por aí um milhão de cartões de visita vergonhosos. E nem as mulheres são invariavelmente belas, só algumas, só poucas. E nem Copacabana é uma exibição exclusiva de sereias deslumbrantes. Há a multidão das gordas, e há as magras, e há as frango-assado, e há as gasguitas, e há as insossas; e há o desconcertante e repulsivo impudor dos barrigudos de calção e as coxas flácidas das matronas varicosas.  

 

Nesse período é o provinciano atacado pela sua grande crise de nostalgia, crise que muitas vezes resulta em fuga. E o peregrino parte, farto do que viu, irritado do que não encontrou, dos enganos com que o embalaram.  

 

Mas se acontece que, passada a crise, o peregrino fica, então será um caso perdido. Porque superados o choque e a decepção iniciais, passa ele a ver e a descobrir o que não viu nem sentiu de começo: o espírito das gentes, a beleza das mulheres, a claridade dos dias; o zumbido da rua já lhe ressoa aos ouvidos feito música. O cheiro da rua já lhe é perfume. E o provinciano restabelecido do seu desengano consegue afinal apanhar o encanto misterioso da cidade que os outros não lhe souberam descrever, e que por isso mesmo tentaram lhe comunicar através de uma lenda ingênua e deformadora.  

 

Aí o provinciano se apaixona pela cidade como se fosse por mulher, se vicia dela como por bebida.  

 

E então vira carioca.

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Sois provinciano? Então, desde infante conheceis a lenda dourada do Rio, a louvação da cidade maravilhosa; e participais da adoração humilde do pequeno homem da província pela grande cidade e os seus habitantes. Nos serões, ao redor da mesa, escutáveis os mais velhos que descreviam o trem do Corcovado e o bondinho do Pão de Açúcar, e as barcas da Cantareira, e os esplendores perdidos da rua do Ouvidor e como é que os bondes passavam outrora por dentro da Galeria Cruzeiro, e como foi que o prefeito Passos rasgou a avenida Rio Branco, então avenida Central. E a história dos palácios da cidade, e das suas igrejas e seus conventos e do bairro Serrador.  

 

Aos poucos, se renovam os elementos da lenda, e a ela foram se incorporando a derrubada do Castelo, o edifício de A Noite, e os arranha-céus de Copacabana, que muitos recordam como simples areal com uma capelinha solitária; vieram em seguida a avenida que o prefeito teima em não chamar Castro Alves, a torre da Central, os palácios dos ministérios, o banheiro do ministro da Fazenda.  

 

Durante a viagem por mar, da sua terra até aqui, a preparação psicológica do provinciano ainda mais se agrava. Desde a passagem de Cabo Frio, que é uma espécie de avant-première. Depois o taifeiro batendo à porta dos camarotes e anunciando que já se avista a “entrada”. E a apanha febril de binóculos e codaques, para o testemunho técnico e instrumental, que os simples olhos de carne não bastam. E os passageiros profissionais e repetentes explicando aos primários os nomes dos acidentes geográficos, a localização das fortalezas, identificando as primeiras torres e os primeiros telhados. E nunca falta aquele senhor idoso que testemunhou as proezas de João Cândido e sabe de cor todo o itinerário do Almirante Negro. No salão engalanado os músicos executam a Cidade maravilhosa. E assim, quando o navio atraca e o viajante pisa o cimento do cais, já está tão atuado que sente vontade de se ajoelhar e beijar aquelas pedras ilustres.  

 

Aos poucos é que se vai desiludindo. Passada a primeira semana, sofre uma impressão curiosa: de que aquele povo não merece aquelas pedras. Tanto edifício bonito, tanto mármore e tantos andares superpostos, e afinal para quem? Quem os entes superiores povoando aqueles palácios, onde os super-homens e as deusas? Não sei o que esperava encontrar o provinciano ― talvez atenienses e romanos de vestes flutuantes, falando grego e latim. ― Sei é que aquilo que encontra o decepciona e o enche de desdém. Genolino Amado, com grande espírito e malícia descreveu o choque do literato estadual que comparece pela primeira vez a uma roda de livraria entre as sumidades da pena, e escuta essas sumidades discutindo não Proust nem Kierkegaard, mas futebol (a propósito e sempre: Viva o Vasco, campeão de terra e mar!). Vai às câmaras, às assembleias, às igrejas, aos teatros e às conferências, e a sua pergunta é sempre a mesma: Afinal que tem esta gente mais do que nós na nossa terra para merecer isto tudo?  

 

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Nesse período é o provinciano atacado pela sua grande crise de nostalgia, crise que muitas vezes resulta em fuga. E o peregrino parte, farto do que viu, irritado do que não encontrou, dos enganos com que o embalaram.  

 

Mas se acontece que, passada a crise, o peregrino fica, então será um caso perdido. Porque superados o choque e a decepção iniciais, passa ele a ver e a descobrir o que não viu nem sentiu de começo: o espírito das gentes, a beleza das mulheres, a claridade dos dias; o zumbido da rua já lhe ressoa aos ouvidos feito música. O cheiro da rua já lhe é perfume. E o provinciano restabelecido do seu desengano consegue afinal apanhar o encanto misterioso da cidade que os outros não lhe souberam descrever, e que por isso mesmo tentaram lhe comunicar através de uma lenda ingênua e deformadora.  

 

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Aos poucos, se renovam os elementos da lenda, e a ela foram se incorporando a derrubada do Castelo, o edifício de A Noite, e os arranha-céus de Copacabana, que muitos recordam como simples areal com uma capelinha solitária; vieram em seguida a avenida que o prefeito teima em não chamar Castro Alves, a torre da Central, os palácios dos ministérios, o banheiro do ministro da Fazenda.  

 

Durante a viagem por mar, da sua terra até aqui, a preparação psicológica do provinciano ainda mais se agrava. Desde a passagem de Cabo Frio, que é uma espécie de avant-première. Depois o taifeiro batendo à porta dos camarotes e anunciando que já se avista a “entrada”. E a apanha febril de binóculos e codaques, para o testemunho técnico e instrumental, que os simples olhos de carne não bastam. E os passageiros profissionais e repetentes explicando aos primários os nomes dos acidentes geográficos, a localização das fortalezas, identificando as primeiras torres e os primeiros telhados. E nunca falta aquele senhor idoso que testemunhou as proezas de João Cândido e sabe de cor todo o itinerário do Almirante Negro. No salão engalanado os músicos executam a Cidade maravilhosa. E assim, quando o navio atraca e o viajante pisa o cimento do cais, já está tão atuado que sente vontade de se ajoelhar e beijar aquelas pedras ilustres.  

 

Aos poucos é que se vai desiludindo. Passada a primeira semana, sofre uma impressão curiosa: de que aquele povo não merece aquelas pedras. Tanto edifício bonito, tanto mármore e tantos andares superpostos, e afinal para quem? Quem os entes superiores povoando aqueles palácios, onde os super-homens e as deusas? Não sei o que esperava encontrar o provinciano ― talvez atenienses e romanos de vestes flutuantes, falando grego e latim. ― Sei é que aquilo que encontra o decepciona e o enche de desdém. Genolino Amado, com grande espírito e malícia descreveu o choque do literato estadual que comparece pela primeira vez a uma roda de livraria entre as sumidades da pena, e escuta essas sumidades discutindo não Proust nem Kierkegaard, mas futebol (a propósito e sempre: Viva o Vasco, campeão de terra e mar!). Vai às câmaras, às assembleias, às igrejas, aos teatros e às conferências, e a sua pergunta é sempre a mesma: Afinal que tem esta gente mais do que nós na nossa terra para merecer isto tudo?  

 

E há ainda a lenda da beleza e da elegância das mulheres e a lenda dos ternos impecáveis dos homens, baseada num dos axiomas da província: “No Rio, a roupa é o cartão de visita do cavalheiro...”. Pode ser, pode ser. Mas então anda por aí um milhão de cartões de visita vergonhosos. E nem as mulheres são invariavelmente belas, só algumas, só poucas. E nem Copacabana é uma exibição exclusiva de sereias deslumbrantes. Há a multidão das gordas, e há as magras, e há as frango-assado, e há as gasguitas, e há as insossas; e há o desconcertante e repulsivo impudor dos barrigudos de calção e as coxas flácidas das matronas varicosas.  

 

Nesse período é o provinciano atacado pela sua grande crise de nostalgia, crise que muitas vezes resulta em fuga. E o peregrino parte, farto do que viu, irritado do que não encontrou, dos enganos com que o embalaram.  

 

Mas se acontece que, passada a crise, o peregrino fica, então será um caso perdido. Porque superados o choque e a decepção iniciais, passa ele a ver e a descobrir o que não viu nem sentiu de começo: o espírito das gentes, a beleza das mulheres, a claridade dos dias; o zumbido da rua já lhe ressoa aos ouvidos feito música. O cheiro da rua já lhe é perfume. E o provinciano restabelecido do seu desengano consegue afinal apanhar o encanto misterioso da cidade que os outros não lhe souberam descrever, e que por isso mesmo tentaram lhe comunicar através de uma lenda ingênua e deformadora.  

 

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