Não, decididamente não tem graça escrever para uma revista que se espalha pelo país inteiro, como a nossa. A gente está sempre se dirigindo a um leitor ubíquo e onisciente, que está em toda parte, que conhece tudo.

Ora, ia eu iniciar esta crônica da maneira mais graciosa; pretendia fazer uma pergunta: o meu querido leitor já esteve em S. Paulo? Mas então me lembrei que muito leitor não só já esteve, como morou, como nasceu em S. Paulo, e até lá reside, e sob o céu de S. Paulo lerá esta frívola última página. É, portanto, a você mesmo, leitor paulista, que dedico o que se segue. Não lhe perguntarei se conhece S. Paulo, porque é óbvio, conhece. Pergunto-lhe em vez disso se algum dia de sábado, às sete horas da manhã, já visitou a feira do largo do Arouche.

É o largo de forma irregular, começando num triângulo, (para quem entra pela rua do Arouche), e acabando num cinema, debaixo dum parque de árvores. Foi pelo menos a impressão que me deixou, visto como o vi atravancado pelas barracas, pelos tabuleiros de frutas, pelas avenidas de flores. E falando em flores, como eram belas, e frescas, e preciosas! Lá se exibem orquídeas com a mesma promíscua facilidade com que aqui se exibem margaridas. E goivos, autênticos e tristes. E saudades, e bocas de leão, e amores perfeitos de luxo, e gérberas, e pâquerettes, e crisântemos. Rosas de toda cor e família, inclusive umas rosas miúdas, copiadas expressamente dum buquê de rosinhas de tafetá de um chapéu que eu já tive. Decerto o jardineiro japonês viu o meu chapéu, apaixonou-se pelo ramo e durante anos e anos ficou modelando nos canteiros aquelas rosas anãs e estilizadas. Esporas, alfinetes, e umas flores que há anos não me apareciam, flores que eu amava, pois nascem nas ipueiras de inverno, no Ceará. Lá nós as chamamos “viuvinhas”, pois são roxas, juvenis e muito alegres. Cravos escandalosos, nunca vi tanto cravo. Ai, isso de flores é mesmo fonte de recordações; nos meus tempos de rapariga tinha eu na janela do quarto uma panela de barro com um craveiro branco. Dia em que desabrochava um cravo, o quarto todo ficava perfumado. Talvez os milhares de cravos da feira não cheirassem tanto como o meu cravo único, que eu depressa arrancava do pé; cravo branco na janela é sinal de casamento, e coisa que se anuncia de mentira, não ajuda a acontecer, antes é agouro.

E legumes também tem; não é uma feira sofisticada como as daqui do Rio, que só vendem vestidos feitos, sapatos china-pau, tamancos e perfumaria. No Arouche tem legumes de toda diversidade, alcachofras imponentes que parecem pinhas de cerâmica, nabos compridos e redondos, montes verdes de espinafres, feixinhos de aspargos, beterrabas de pele escura e carne purpurina, repolhos roxos tão decorativos que se assemelham a gigantescas rosas príncipe negro, ainda entrefechadas. E a salsa que emurchece rápida em cima dos tabuleiros com um jeito pudico de sensitiva...

E no meio da fruta e dos legumes, as moças japonesas, as nisseis, de corpo gorducho e carinha redonda. Todas mandaram fazer permanente no cabelo e ostentam boucles caprichosos. Falam um sotaque puro de paulista, abrasileiram-se o mais que podem. Até poderiam dizer que são do Norte, que são legitimas cearenses, com aquela estatura baixa, a cabeça chata, o olho enviesado de índia. Vendem com ar displicente, sem nada da alegada subserviência das gueixas e das musmés.

Tem num tabuleiro um peixe castanho com reflexos furta-cor e que se vende seco. Penso comigo que talvez seja arenque, mas não perguntei a ninguém para confirmar. E tem azeites comestíveis, de uma barateza sedutora, mas só compra quem tem cartão de açúcar. E que queijos! E os barris de azeitonas, e os serrotes de massa de tomate, e macarrão argentino, americano, e até mesmo nacional. Bem, mas aí já estamos em território italiano. Deixamos os japoneses que todos têm ares de samurais, coronéis disfarçados do exército nipônico. Deixamos a japonesa velha com sua face de bruxa, tão amarrotada, tão consumida de ruga, que não terá no rosto um milímetro quadrado de pele lisa. Aquela deve ter todos os seus dezoito filhos homens e trinta e cinco netos envolvidos nos assassínios da Shindo Renmei. Por isso mostra uma expressão ao mesmo tempo fatalista e atormentada, os olhos vazios como um buraco vidrado, a boca enterrada na cara, a mão curta, engelhada e negra estendendo-se tremulamente para receber o dinheiro dos tomates.

Deixemos os japoneses, porque, por mais que sorriam, a gente agora não se sente bem entre eles. Fica-se eternamente dividido entre o duplo receio de os ver a todos com maus olhos e estar fazendo uma generalização injusta, ou os ver com olhos bons e estar sendo logrado.

Passemos ao quarteirão italiano, do qual já falei acima. E desdenhemos os queijos preciosos, as azeitonas que dão água na boca, as massas, o sugo. Vamos parar debaixo daquela árvore grande que deve ser uma amendoeira. E cheguemos junto daquela italianinha tão belíssima como nunca nasceu outra no Brasil, apesar de em S. Paulo havê-las lindas. Esta ainda não teve oportunidade de ficar rica, o papai não ascendeu da barraca de feira até à fábrica de tecidos ou ao edifício de apartamentos. Talvez, quem sabe, nunca enriqueça. Há muito italiano que morre pobre em S. Paulo, apesar de ter-se a impressão de que acabam todos morando em palacete, com ciprestes no jardim. Ai, realmente, esta nunca ficará rica. Não vai ter casamento de luxo com moço da aristocracia, nem oferecerá cotillons de ouro aos convidados no dia das suas bodas. É italianinha que não pensa no futuro. Escondida por trás do grosso tronco da árvore, tem as mãos presas, os olhos presos, o fôlego preso, a alma toda presa na figura dum mulato temperamental que ali também está fascinado, morto e cego para o mundo. Na tenda, do outro lado da árvore, uma velha, mãe ou avó, grita pela pequena e ralha numa língua que não sei se é dialeto ou se é português mal adaptado, mas que é evidentemente descompostura. Os namorados, porém, com que ouvidos a ouviriam? Ele agora está dizendo um segredo, e ela o escuta como se daquilo dependesse sua vida ou sua morte. E quem sabe talvez dependa mesmo? Assuntos de amor, mormente entre um mulato daqueles e uma italianinha daquelas, são sempre de vida e morte. Oxalá sejam de vida ― vida longa e longas venturas ― tão lindos e apaixonados se mostram os dois, benza-os Deus.

rachel-de-queiroz
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