coluna: Última Página
Publicada também em: livro Um alpendre, uma rede, um açude, de 1958, com o título "História da velha Matilde"
A velha Matilde é filha de escrava, nascida sob o Ventre Livre e natural do estado do Rio de Janeiro. Não é mulher de muita conversa nem gosta de contar mentiras. Em geral só conta casos que sabe de ciência própria; lá uma vez é que repete um que ouviu dizer, mas nessas ocasiões sempre se louva em pessoas de toda confiança.
A história que adiante transcrevo, disse-me ela que a escutou do próprio protagonista, um seu conhecido mineiro que, por via de perseguições políticas, teve que se mudar, depois de velho, para o estado do Rio.
Nos seus tempos de moço partiu esse homem de viagem, em companhia de um camarada, ambos nas suas bestas de sela e levando à arreata outra besta, de carga. lam fazer compras de gado numa terra que tem por nome Piauí, zona de fartura de pasto e de gado gordo, onde ainda se criam mais bois do que em Goiás. O mal de quem vai ao Piauí é ter de passar por outro lugar, por nome Ceará, terra de sina muito triste, de povo aflito e pecador. É verdade que alguém, se não quisesse atravessar o Ceará para alcançar os campestres do Piauí, poderia embarcar num vapor do mar e chegar ao seu destino. Mas afinal, por pior que seja uma terra, o mar é ainda mais perigoso. Mormente para quem pretende voltar tangendo gado.
E já tinham os dois viajantes chegado ao Ceará sem mais novidades – somente não encontravam rancho nem mantimentos, e ai deles se não levassem o surrão bem sortido.
No fim de uma tarde, iam subindo por uma estrada de alto, com as bestas um pouco estropeadas do pedregulho, quando avistaram correndo de ladeira abaixo uma moça branca, com o cabelo solto lhe batendo na cintura. A pobre arquejava, já sem fôlego; e, mais para atrás dela, surgiu no cabeço do alto um bando de homens que empunhavam machados, cacetes, cabrestos e facões, e gritavam perseguindo a pobrezinha, como um bando de cachorros no rastro de um veado.
Assim que a moça emparelhou com a besta do forasteiro, segurou-se no estribo dele afim de tomar suspiração; e no pegar do loro, mesmo naquela agonia, reparou no arreio e viu que o cavaleiro vinha de fora. Ficou então mais confiada, abraçou-se na perna do homem e pediu que pela luz de seus olhos lhe valesse.
O homem, meio tonto, com a moça arquejante pendurada na perna e grupo dos perseguidores se aproximando, indagou que crime era o dela que lhe granjeara perseguição tão medonha.
Sem largar o estribo e o pé do cavaleiro, a moça foi explicando como pôde que não tinha crime nenhum, que se aquela gente toda andava atrás dela, era para lhe tirar a vida e lhe comer a carne.
O homem não acreditou, pensou que a criatura havia de ser uma doida perigosa, ou criminosa fugida da cadeia e que inventava aquelas mentiras levada pela loucura ou pelo medo. Mas sofreou a besta que se impacientava e, compadecido de a ver tão formosa e naquela situação, esperou os homens que já vinham perto.
Quando o bando dos caçadores cercou a caça e o viajante, o mineiro os interpelou. E eles logo lhe confirmaram a história toda da rapariga, alegando a grande fome que os levava àquilo; sem gado, sem criação, sem legumes, iam-se comendo uns aos outros, escolhendo em primeiro lugar as mulheres, que são mais gordas e mais fracas. Andavam de um jeito que nem o que beber tinham. Quando a sede apertava, saíam pelo mato com uma faca até encontrarem uma árvore; riscavam a casca da árvore, esperavam que escorresse o choro do pau – e com aquela gota enganavam a sede…
O forasteiro, de princípio, ficou sem fala, vendo os desgraçados fazerem, sem vexame, confissão tão pavorosa. Lembrou-se depois de que a fome a tudo obriga: na história da Nau Catarineta os marujos esfomeados primeiro puseram solas de molho e depois deitaram sortes nos companheiros escolhendo a qual matar. E assim pensando, deixou-se estar parado, com as feras rondando, e a moça sempre agarrada aos loros da sua sela. Afinal teve uma ideia:
— Se eu der minha besta de carga para vossemecês comerem, me prometem que deixam a moça em paz?
Boca que mal falaste, nem ele tinha acabado de dizer, os homens mudavam a vista para a besta, viam que tinha mais carne do que a moça; e antes que o camarada desarreasse a carga, já estava a besta estirada no chão, com um golpe no sangradouro. Ainda estrebuchava, quando começaram a esfolar. O mineiro ofereceu a mão à moça, fê-la subir à garupa da montaria, calçou as esporas e saiu correndo como um desesperado; tinha medo até do tropel da besta do camarada, que vinha um pouco atrás, pois ele se demorara apanhando a bagagem.
Nem chegou a ir ao Piauí. Dobrou caminho na primeira encruzilhada e voltou para a sua terra, onde cristão não come cristão; levou, porém, como lembrança, aquela moça, trocada por caridade pelo preço de uma besta.
E nessa viagem de volta, estando os dois sempre juntos, tomou o mineiro amizade à rapariga. Chegando à sua terra não pode casar com ela porque já tinha mulher; mas botou-lhe casa, deu-lhe uma negrinha para o seu serviço, e os filhos que com ela teve mandou-os para o estudo, juntos com os filhos do casamento. Um deles chegou a padre, o outro foi doutor formado.