No colégio nós dizíamos que ela era da nobreza e que tinha pai conde: Não que Ma Soeur fosse pessoa de se arrogar grandezas ou sangue azul: ao contrário, quando a gente lhe perguntava o nome que no mundo fora o seu, ela respondia simplesmente que se chamara Maria. E quando insistíamos pelo sobrenome, ela acrescentava: Maria da Conceição. Nada mais. Se lhe emprestávamos brasões era por luxo nosso, por esnobismo de amor, para lhe arredondarmos a lenda. Ma Soeur, por si, só dava e só procurava dar a impressão de jamais ter tido um passado ou jamais ter tido vida sua própria: poder-se-ia até jurar que ela nascera com aquela corneta branca engomada emoldurando-lhe o rosto e lhe fazendo sombra aos olhos claros, vestida do hábito de lã azul, cingido à cintura o avental de cretone azul.

Antes severa do que meiga, raramente sorria, num rápido distender dos lábios finos. Mas se não tinha doçuras, igualmente não tinha asperezas, o seu clima era de imutável serenidade. Não era afetada por caprichos, por emoções, por bom ou mau humor: eternamente a mesma, sem mudanças, sem surpresas, talvez fosse esse o segredo da incondicional confiança que sempre nos soube inspirar. A gente tinha tanta certeza de que a acharia quando a procurasse, quanta certeza tem um crente na segurança da sua igreja de pedra: tranquila, acolhedora, sempre no mesmo lugar, sempre com as portas abertas.

Mas se com isso dou a impressão de que Ma Soeur era uma contemplativa, errei: nunca a igreja militante contou com um soldado mais entusiástico. Fez-se religiosa não por estático amor de Deus, mas por amor ativo; não por renúncia, mas por heroísmo. Se um dia a proclamarem santa, será dos santos da família de São Francisco: Ma Soeur preza acima de tudo a caridade e a alegria e só põe mais alto que essas virtudes salutares a sua desadorada paixão pela justiça. Ama além disso tudo que é bonito, e limpo, e são, a mocidade, a higiene e a técnica.

Talvez do Evangelho o que lhe agrade menos seja a parábola da porta estreita, porque para ela o caminho do céu é uma estrada larga, semeada de flores, onde não se escondem pedras que nos magoem os pés, e onde não se escutam vozes sombrias de tentação. Ante o seu coração sem refolhos, que nunca se transviou, que nem sequer tropeçou, o mal é que é difícil, tortuoso, impraticável; o bem é tão fácil e cômodo! Basta a gente encomendar-se a Deus, e seguir para diante, segurando-se à Sua Mão…

Ela odeia a mentira, acredita firmemente na verdade, na justiça, no livre arbítrio. Sempre combateu a primeira, sempre praticou e defendeu os últimos. E pode ser que tenham sido singulares os resultados que conseguiu com essa pregação e com esse exemplo.

Porque o seu ódio à mentira talvez nos tenha induzido a desmandos de sinceridade. E o seu culto da verdade levou algumas de nós a procurar o que verdade nos parecia nos lugares mais inesperados, – até mesmo longe daquele Deus no qual Ma Soeur põe sua esperança e sua certeza. Aquele amor da justiça fez com que outras de nós se rebelassem contra o que nos parece injusto nas leis deste mundo, e a serviço dessa revolta chegássemos a ousadias cujas proporções Ma Soeur considera assustadoras. E a sua crença viva no livre arbítrio cristão insensivelmente a exageramos, chegando a uma concepção e a uma prática muita vez excessiva da liberdade e da responsabilidade.

Contudo, por mais longe que nos tenha levado a vida, nunca nos sentimos totalmente separadas dela – e muito menos nos sentimos suas inimigas. Afinal de contas, nunca a renegamos. Não mudou o amor que lhe temos, nem se alterou a nossa confiança. E sabemos muito bem que ela sabe disso.

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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