Transpiração, inspiração

Meninas orientais tomam sorvete, circa 1940. Foto de Hildegard Rosenthal. Coleção Hildegard Rosenthal/ IMS

“Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade”, escreveu Machado de Assis, com ironia muito sua, e deu a receita: bastava dizer “Que calor! Que desenfreado calor!”, exclamações a serem proferidas “agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca.”

Século e tanto depois – a crônica é de novembro de 1877 –, estamos livres da sobrecasaca, pesada e abafada vestimenta, carapaça, quase, dentro da qual o jovem (38 anos) colaborador da revista Ilustração Brasileira se sentia assar na fornalha do Rio de Janeiro. Nem por isso, sabemos, o refresco foi total. Encaradas agora em mangas de camisa, ou sem camisa alguma, as demasias térmicas do verão carioca seguiriam não só fazendo transpirar como inspirando bons cronistas surgidos depois de Machado de Assis.

Rubem Braga, por exemplo, numa “crônica excessivamente acalorada” do início dos anos 1950, com título lacônico – “Calor” –, ainda inédita em livro, constata que o verão “chegou de verdade, fazendo mingau do asfalto”. Obrigado a funcionar normalmente apesar da canícula, ele deixa pingar uma reclamação: “Nós somos mais estúpidos que todo o resto da América Latina, onde as horas de mais calor são as horas de sesta”. O Velho Braga, como ele próprio se chamava desde a juventude, lamenta não estar em Roma, “cidade honesta onde da 1 às 3 ninguém faz coisa nenhuma”.

Mineiro transplantado que amava o Rio, Paulo Mendes Campos tratou do tema em mais de uma ocasião, e mesmo na prosa poética de “O amor acaba”, na qual arrola circunstâncias em que pode uma relação amorosa chegar ao fim, menciona romances que o “abuso do verão” faz derreterem.

Também ele vindo de Minas Gerais, Otto Lara Resende escreveu fartamente sobre as delícias e tormentos do calorão carioca. Em “Sombra e água fresca”, falou na arte de lidar com o verão “como se lida com um cão bravo”. Em “Carioca da gema”, escrita quando era ainda primavera, o cronista de Bom dia para nascer registrou o bafo abrasador de um verão que “chega assim, sem dar bola para o calendário”, sem tomar conhecimento “da rotação da Terra, muito menos do horário de verão.”

As instabilidades do janeiro seguinte fariam Otto voltar ao assunto em “Entreato chuvoso”: “Aqui, na nossa latitude, até os elementos da natureza de fato se ressentem de uma certa ordem. Dias e dias daquele calorão e, súbito, uma onda de frio”. Calejado, esse mineiro pouco dado a ir à praia deixa uma advertência: “Tudo pode acontecer”. Inclusive boas crônicas, haverá de acrescentar o leitor, agradecido.