Rio, capital da crônica

Vista dos morros Pão de Açúcar e Urca, 1946. Foto de Thomaz Farkas/ Acervo Instituto Moreira Salles

Corro os olhos pelos nomes que compõem este Portal da Crônica Brasileira, e constato: nenhum carioca (por enquanto...) nesse time.

Confira: Clarice Lispector nasceu na Ucrânia e adolesceu no Recife, de onde veio também Antônio Maria; Rachel de Queiroz é cearense, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, mineiros, e Rubem Braga, capixaba. Alargo a vista e me dou conta de que, na privilegiada geração a que pertencem, a chamada geração de ouro da crônica brasileira, vicejante sobretudo nas décadas de 1950 e 60, bem poucos são nativos do Rio de Janeiro. Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Carlos Heitor Cony, quem mais? Dos graúdos, desconfio que é só. De Minas vieram Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino; de Pernambuco, Nelson Rodrigues e Manuel Bandeira; do Espírito Santo, José Carlos Oliveira.

Foi no Rio, no entanto, que estes forasteiros vieram a frutificar. Aí chegaram quando a cidade era a capital não só política do país. Nunca se saberá se teriam brilhado com a mesma intensidade em outro lugar que sediasse os poderes da República. Quase posso apostar que não, pois só o Rio teria reunido (a conversa, hoje, claro, talvez fosse outra) condições para o florescimento de uma tal fornada de cronistas. Sem abjurar sua bagagem de origem, todos, uns mais, outros menos, se carioquizaram.

Duvida? Basta catar, sem muito esforço de garimpeiro, preciosidades acondicionadas no vasto balaio deste Portal. 

Aqui está, por exemplo, Paulo Mendes Campos a seguir no céu – “Sobrevoando Ipanema" – os volteios de uma gaivota “gratuita e vadia”. Ou debruçado, em “Minhas janelas”, sobre aquela, carioca, “mais generosa e plena” que qualquer das muitas que se abriram a seus olhos. O mesmo Paulo a descobrir, em “No domingo de manhã”, que “o Rio era dourado, mas de um dourado que não se encontra no metal mais puro”.

Há ainda Antônio Maria a concluir, em “A lagoa”, que não há recanto carioca mais bonito que a maltratada Lagoa Rodrigo de Freitas. Em “Amanhecer em Copacabana”, ele arremata a madrugada num banco de praia, varado pela “insuportável lucidez das pessoas fatigadas”. Não longe dali, nas linhas de na "Praia do Flamengo”, Rachel de Queiroz assiste ao fascinante entra-e-sai de diferentes tipos de banhistas, para no final se encantar com o fato de que é “tudo completamente de graça”.

Quanto a Rubem Braga, ele se faz ao mar, em “Faroleiro”, e vai conhecer Astrogildo, operador das luzes com que o farol da Ilha Rasa dardeja o Rio de Janeiro. Vai também, em “Passeio” (igualmente inédita em livro), ao encontro do oposto da luz, e então nos conta que “a sombra quem a faz é o sol, quem a azula é a lua, quem a deixa perene no ar, remota mas fresca, é a saudade do que passou”.