A política, por que não?

Fachada do Ministério da Educação e Saúde, Centro, Rio de Janeiro, 1947. Foto de Thomaz Farkas/ Acervo Instituto Moreira Salles

Território natural da graça e da leveza, nem por isso a crônica está fechada a temas áridos, ásperos, quando não espinhentos, como a política. Não é frequente, mas acontece – e, quando se trata de cronista dos bons, o fruto pode ser até apetitoso.

Do nosso time, quem mais escreveu sobre política foi Otto Lara Resende, não tivesse sido ele o que mais se aplicou ao jornalismo. Repórter, fez com o general Lott, em novembro de 1955, uma entrevista que se tornaria famosa, horas depois de o entrevistado haver dado um “contragolpe preventivo” para garantir a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Duas crônicas – “A restrição mental” e “O direito no sufoco” – deixam claro que Otto, naquele episódio, foi mais do que repórter. E mais duas – “O cortejo e a mentira” e “Direto à fonte” –, sobre outro evento de novembro, a proclamação da República, revelam nele um insuspeitado historiador. 

De Rachel de Queiroz sobre política, vale revisitar dois textos, ambos de 1964. Em “A cidade sitiada”, escrita em fevereiro, momento de crescente acirramento ideológico, a escritora cearense se mostra alarmada com o desabastecimento no Rio de Janeiro. “Está todo dia faltando qualquer coisa”, escreveu ela, e pôs-se a enumerar: leite, carne, feijão, arroz, pão, manteiga, transporte público, telefone, água, gás. 

A crônica, de cenho franzido, ameaça tornar-se um furibundo editorial – e eis que Rachel, sarcástica, nos diverte ao imaginar que em breve os cariocas estarão condenados a fazer como os parisienses durante o dramático cerco da cidade pelos prussianos, na guerra de 1870, quando foi preciso sacrificar os habitantes do zoológico e criar cardápios à base de carne de elefante, camelo, urso, canguru, não faltando um prato no qual gato e rato puderam finalmente coexistir. 

Adepta do golpe militar, Rachel de Queiroz não tardaria a outra vez se inquietar, em junho, dessa vez em razão de arbitrariedades cometidas pelos novos donos do poder. “Quando leio nos jornais que a casa de fulano de tal foi ‘visitada pela polícia’, que, em suas buscas apreendeu grande cópia de ‘literatura comunista’, tremo”, escreveu ela em “A caça às feiticeiras”.

Já Rubem Braga destilou com bom humor lembranças de capítulos agitados da história do Brasil de que foi testemunha. Em outubro de 1930, aos 17 anos, era “um magro e sério estudante de Direito” quando assistiu, no centro do Rio, a escaramuças do movimento que depôs Washington Luís e entronizou Getúlio Vargas. Tão impressionado ficou, que, numa bobeada, ficou sem a bela capa que dias antes lhe custara uma quantia insensata. Não por acaso, o relato do momento histórico se chamou “A capa”, título mais tarde trocado por “A Revolução de 30”. 

No que poderia ser um aviso para não mais se meter em confusões armadas, dois anos depois Rubem Braga perderia um capote (além de um cobertor) quando, repórter, cobria uma das frentes da Revolução Constitucionalista de 1932. Mas este é apenas um dos muitos divertidos lances de uma história que também teve dois títulos – “Correspondente de guerra andava à paisana”, depois “Na Revolução de 1932” – e na qual o cronista, além de testemunha, veio a ser um temerário personagem.

 

A Revolução de 30, da qual o Braga, já taludo, presenciou um capítulo no centro do Rio, foi vivida também, na província, por dois outros futuros cronistas, bem mais novos do que ele. Para Paulo Mendes Campos, aos 8 anos, mesmo o matraquear sinistro das metralhadoras foi uma farra. “Meu único receio era de que os adversários dos rebeldes se entregassem depressa demais”, contará ele em “Quando veio a guerra”, ou “Revolução”. A parte ruim foi um susto grande do qual saiu humilhado e com as calças molhadas. Nem isso aconteceu no Recife com o moleque Antônio Maria, um ano mais novo que Paulo, à espera de acontecimentos sensacionais que ali acabariam não se produzindo. “Minas está pegando fogo!”, ouviu dizer – mas em sua cidade, nem sinal de ação armada: “Não vieram os tanques, não aconteceu nada”, contará ele, decepcionado, em “Lembranças e tiroteios”.