Podem dizer que tenho parcialidade pelos judeus, e creio que é verdade. Neste mundo hostil, em que tantos se põem contra eles, não será demais alguns poucos que se lhes mostrem favoráveis. Mas agora não vamos tratar de judeus especialmente, mas apenas de um ramo comercial a que eles se dedicam com notável interesse: o comércio das antiguidades.

A cidade inteira, de uns anos para cá, se encheu de antiquários, ou lojas de bricabraque, como se dizia nos tempos de Fradique Mendes. Objetos profusamente heterogêneos, que vão do mais bonito ao mais horrendo, enchem prateleiras e vitrinas, e é necessário ter um olho muito afiado de connoisseur para distinguir o bom do ruim naquela confusão muitas vezes proposital de autênticas e falsas preciosidades.

Uma enorme porcentagem dos donos dessas lojas é composta de judeus; e é comum acusarem-se os nossos judeus antiquários de estarem acabando com todas as raridades do tempo da colônia e do império; de que, por culpa da ganância dos “gringos”, já não resta nas antigas famílias um prato, uma área, uma salva de prata, uma papeleira de jacarandá. Foi tudo comprado por bagatela e vendido aos novos ricos por contos e contos de réis.

A verdade é bem curta. As antigas famílias que vêm guardando preciosamente as suas relíquias, não se desfizeram delas. Ou, quando se desfazem, seduzidas pela atual valorização (provocada aliás pelos antiquários) fazem-no a muito bom preço. Jamais os compradores de antigualhas conseguiram pôr as mãos nesses jacarandás, nessas porcelanas ou cristais, cujo valor os donos conhecem muitíssimo bem, quando os não superestimam, juntando ao preço real da peça o seu valor sentimental, somada à porcentagem “de amor próprio” que o dono sempre acrescenta ao que é seu. O que os comerciantes de antiguidades fizeram foi praticamente tirar a sua mercadoria do nada. Saíam por aí, a princípio pelos bairros velhos da cidade, depois pelos subúrbios, e por fim se metendo por esses sertões de meu Deus, em Minas, estado do Rio, Bahia; desencavavam aí, nos sótãos dos sobrados, nos porões das casas de moradia, nos refugos de barracões de fundos de quintal e até nos galinheiros servindo de poleiro aos frangos, as velhas peças de jacarandá e vinhático às quais ninguém dava valor, e que marchavam para uma destruição rápida, como efetivamente muitíssima coisa – tesouros – se destruiu assim. Precisou que aparecesse o judeu antiquário para discemir sob as camadas de tinta grossa, de verniz preto ou simplesmente de poeira e sujo o velho e nobre Jacarandá, “madeira escravocrata”, como a chamava um conhecido meu, e saberosamente definida no dicionário de Morais: “Jacarandá s.m. – É madeira brasílica, rija, algum tanto aromática; a madeira é preta, talvez com suas veias arroxeadas ou branca; serve para fazer móveis de casa, grandes; para cobrir madeira ordinária, fazendo-a em lâminas, e para marchetar”. 

De canivete na mão para raspar o zarcão ou a sujeira, às vezes de lente para verificar um contraste, foram os nossos judeus identificando louça e prataria, camas desmanteladas, sofás sem pernas e sem palhinha, (às vezes com uma tábua de caixote servindo de assento) velhos oratórios descidos da sua função religiosa, tocheiros lavrados, encostados como trastes velhos nas sacristias e substituídos nos altares por modernos castiçais de imitação, desses que têm lâmpadas elétricas servindo de chama e volutas e grinaldas de gosto art nouveau. Preciosa louça da China desparelhada e desbeiçada servindo no uso diário (como uma que eu vi numa pensão de beira de linha, na qual se dava o almoço do trem). Lampiões de porcelana; santos veneráveis, obras-primas de algum santeiro anônimo, Nossas Senhoras de olho fundo e pregas rijas no manto, S. Miguéis desproperelonados de cabeça grande e corpo curto, que os vigários de coração simples mandavam trocar por imagens de gesso colorido de Santa Terezinha do Coração de Jesus. Isso quando não queimavam os santos de pau num piedoso auto de fé, como o fez certo vigário com os santos da capela da fazenda de minha avó; dizia o padre, talvez com fundamento, que “uns santos feios daqueles não serviam de devoção, serviam de mangação”. Tinham mais de cem anos e nunca vi outros iguais a eles.

E desse modo os judeus antiquários salvaram do fogo ou do bicho tanta coisa preciosa. Criaram praticamente o mercado de antiguidades, pois antes deles só alguns poucos colecionadores se interessavam pelas nossas velharias. Mostrou-me uma vez um antiquário uma preciosa marquesa por ele descoberta no estado do Rio. Os espaldares de jacarandá, bem como as travessas laterais, estava tudo coberto com uma camada grossa de tinta amarela; o dono da casa custou entretanto a consentir em vendê-las porque no momento lhe eram muito úteis, servindo de grade no chiqueiro dos bacorinhos. Deixou-se seduzir afinal quando viu a nota de cem mil réis.

E falando nesses cem mil réis, chega-se à grande acusação: que os judeus pagam uma ninharia pelo que adquirem e cobram uma fortuna do comprador. Mas há várias atenuantes para isso. Primeiro, se é verdade que eles pagam preço vil pelo artigo, é porque os próprios donos o depreciaram, arruinaram e quem então oferecia mais? Hoje, essa era do preço vil já passou e no mais escondido vilarejo de Goiás já chegou a notícia de que uma peça de Jacarandá é o mesmo que ouro em pó. Até exageram. Depois de reparadas e postas à venda, são as antiguidades, por definição, artigos de luxo. Só os ricos as compram. O pobre ou remediado que deseja uma cadeira, deseja especificamente a máquina de sentar, sólida, cômoda e barata. O grã-fino que se pode dar ao luxo de possuir a peça de museu, – em geral frágil, nem sempre cômoda e de utilidade incerta – que mal faz que pague caro? Porque lamentar que se ponha em circulação o dinheiro dos ricos? Será melhor que fique guardado nos bancos, produzindo novas ninhadas de dinheiro, como ratos? Acompanhemos o itinerário daquela marquesa, por exemplo. Do chiqueiro foi levada para o trem, e chegou à oficina; lá passou pelo banho de soda cáustica, pela mão de lixa; reconstituíram-lhe com perícia as peças danificadas, foi-lhe refeito o lastre de palhinha do qual já nem havia notícia; puseram-lhe ferragem de armar nova e cara, de acordo com a nobre peça. Lustraram-na, arrumaram-na e finalmente foi posta à venda por alguns contos de réis. A grã-fina que a comprou deu gritos de satisfação pois aquela era justamente a marquesa dos seus sonhos. Está num palacete da Gávea como em vitrina, devidamente preservada para as gerações futuras e decerto acabará num museu, não só porque a peça o merece, mas porque o dono é vaidoso e gostará de figurar nos catálogos.

Quem proporcionou portanto a preciosidade ao amador ou estudioso de daqui a cem ou 50 anos? O obscuro judeu que, ao sol e à chuva garimpando antigualhas, descobriu na lama aquela joia enxovalhada, dando-lhe vida, ambiente, valor. Sua obra de criação foi quase tão completa quanto a do artesão mulato que lavrou a talha no jacarandá bruto. Dir-se-á que a peça já existia quando o judeu a descobriu. Mas dispersa, envilecida, irreconhecível – e em perigo iminente de destruição. As palavras também existem nos dicionários, mas se não for a mão do artista que as arranja, que serão elas? Assim, as tintas nos tubos, a música nos instrumentos. E os velhos jacarandás esquecidos, mutilados. Nasceram outra vez. E tão bem aprenderam o ofício de os criar, os meus caros antiquários, que, dizem, os filhos da Candinha, já existem oficinas onde os móveis antigos são totalmente recriados do pé ao topo, e tão parecidos, tão “autênticos” que chegam a ter buracos de bicho e cheiro de mofo...

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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