Tudo em família

Família, 1974. Foto de Madalena Schwartz/ Acervo Instituto Moreira Salles

Uns mais, outros menos, não há cronista que não deixe vazar em prosa um tanto, ou muito, de seu baú familiar, presente ou passado. O que, aliás, está na natureza de um gênero cujos momentos mais felizes nos dão a impressão de estarmos sentados ao lado de alguém que parece falar a cada leitor em particular. 

Basta ver, numa fartura de exemplos, a “Receita de domingo” que a sensibilidade de Paulo Mendes Campos com certeza copiou do imaginário caderno de seu convívio com a mulher e os filhos. Aonde mais teria ele ido catar, num começo de manhã, certa “dissonância festiva de instrumentos e percussão – caçarolas, panelas, frigideiras, cristais – anunciando que a química e a ternura do almoço mais farto e saboroso não foram esquecidas”?

Mais fundo no tempo, o cronista vai recuperar, em “As horas antigas”, delicados fragmentos de sua meninice e adolescência na Belo Horizonte dos anos 1920 e 1930, quando ainda não se usava engaiolar-se em apartamentos, e sim esparramar-se em residências com quintal e jardim; casas aonde iam bater o leiteiro, o vendedor de frutas e verduras, o entregador do armazém, e o homem da barra de gelo, pois geladeira não era luxo para todo mundo. Um tempo, nos conta o cronista, em que “as famílias se recolhiam cedo, os próprios boêmios iam dormir antes de clarear a madrugada”, ficando apenas “os literatos e as meretrizes” na espera do sol, cujo nascer desataria, ruidosa, “a denúncia dos galos”.

Naquele mesmo instante matinal, em Pernambuco, pouco mais velho que o futuro colega e amigo PMC, o meninote Antônio Maria poderia estar a pique de morrer levado pelo mar, pois, tendo dado cabo de uma garrafa de cachaça, apagara na praia, e ali permanecera, sozinho. Resgatado quando as ondas já o carregavam, ele terminará em casa, abraçado a um buquê de irmãs, todos em prantos. O pileque ficaria sendo um dos flashes recolhidos em “Lembranças do Recife”. Ali entraram, ainda, historinhas como o quase desastre num velório na família, durante o qual, de madrugada, não havendo adulto nas imediações, uma das primas ia derrubando o caixão do velho Augusto. Não espanta que Maria, em outra crônica autobiográfica, “O atrabiliário”, tenha cravado este diagnóstico: “O que atrapalhou minha vida foi ter visto e feito muita coisa, desde pequenininho”.

Sem arrependimento, Rubem Braga também pôs em crônica alguns inocentes desmandos de seus tempos de moleque em Cachoeiro de Itapemirim, a cidade capixaba onde nasceu. Inocentes? Bem, nem tanto. Numa série de três crônicas – “Teixeiras I”, “Teixeira II” e “Teixeira III” –, que chegariam a livro com títulos menos burocráticos (“Os Teixeiras moravam em frente”, “As Teixeiras e o futebol” e “A vingança de uma Teixeira”, respectivamente, todas em A traição das elegantes), ele rememora a encrenca em que se envolveu sua turminha na insistência em jogar futebol em frente à casa de uma família desse sobrenome. Talvez por humildade, Rubem Braga não nos deixa saber se jogava bem – mas revela o papel surpreendente que teve nas escaramuças com as moças (seriam oito ou 20?, se pergunta ele) do clã Teixeira.  

 Também Otto Lara Resende se ocupou de família que não a sua, mas não no mesmo tom – o contrário disso, na verdade: em agosto de 1991, na crônica “Réquiem para dois rapazes”, ele deixa ver o quanto se emocionou com a tragédia de dois adolescentes dispostos a sequestrar ninguém menos do que a Xuxa, na porta do teatro onde ela gravava seu programa. Viajaram de São Paulo ao Rio, armados – e acabaram mortos pelos seguranças. 

Outra que escreveu sobre família alheia foi Rachel de Queiroz, mas aí foi só maciez, anunciada já no título: “Um corte de linho”. Publicada há quase 70 anos, a crônica acende no leitor, neste aqui, pelo menos, uma vontade de saber o que o tempo terá feito daqueles húngaros, dois homens e quatro mulheres, que aqui vieram viver no pós-guerra. Instalados na Ilha do Governador, tornaram-se amigos da vizinha Rachel, a quem um dia deram de presente um corte de linho – e não qualquer: por eles mesmos tecido nos teares que providenciaram para o seu sustento. Curiosa história de uma família de intelectuais que, por necessidade, transitou, se você me permite, do texto ao têxtil...