Neste país com nome de árvore

De madrugada, o primeiro banho das mulheres na lagoa, Parque Indígena do Xingu, 1975 circa. Foto de Maureen Bisilliat/ Acervo Instituto Moreira Salles

Nascido em 1905, o cronista e romancista Jurandir Ferreira chegou ao fim da vida, quase um século depois, sem jamais vestir o figurino do velho ranzinza. Ao contrário, era conhecido também por sua bonomia. Mas nem por isso deu trégua a quem lhe parecesse ameaçar o sossego e as belezas naturais de sua cidade, a graciosa Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais. 

Nos anos 1950, por exemplo, quando palavras como ecologia e ambientalismo ainda não tinham uso corrente, Jurandir Ferreira se insurgiu, em “Cabritos na horta”, contra o que qualificou como “furibundo projeto” – a construção de uma estrada rumo ao cume da Serra de São Domingos, que domina a paisagem de Poços. “Penso na inocência colossal e indefesa da montanha, na sua enorme tranquilidade”, escreveu ele, receoso de que a estrada viesse a “inocular em doses mortais o pior e o mais destruidor dos vírus, que é para ela o trânsito das gentes.” Não é impossível que o alerta do cronista tenha imposto aos construtores uma dose de moderação. A estradinha, estreita e simpática, culmina numa estátua de Cristo, menor apenas que a do Corcovado, ali plantada em 1958, mas no essencial não comprometeu a Serra de São Domingos. 

Vigilante incansável, Jurandir Ferreira saiu em defesa, também, na crônica “A árvore do doutor Perrone”, de uma solitária tapuia-caiena, ao vislumbrar “sociedades secretas maquinando contra a eliminação dessa última sobrevivente”. Em outra ocasião, com “Dos macacos e da quieta substância dos dias”, posicionou-se contra os ruídos urbanos que começavam a comprometer o sossego de uma cidade onde, na infância, o cronista se habituara a ver um elegante fiscal aplicando multa em “carreiro cujo carro de bois viesse rechinando pelas ruas do povoado”.

Rubem Braga não era menos sintonizado nas belezas e mistérios da fauna e da flora. Não espanta que tenha plantado horta, pomar e jardim na cobertura, em Ipanema, onde viveu de meados da década de 1960 até a morte, em 1990. Bem antes disso, nos anos 1950, manifestou em “Parque” o desejo de conhecer o naturalista Augusto Ruschi, a quem muito admirava – e que viria a homenageá-lo ao dar a uma variedade de orquídea o nome Physosiphon Bragae Ruschi. Em “Seringueiro”, o cronista se interessa pelas agruras de quem, no Acre, vivia da extração do látex. Em “Floresta”, rememora o dia já remoto em que se aventurou, sozinho, por entre a massa de árvores, experimentando então o “sentimento de estar no seio de um organismo grande, imenso, feito de muitos outros, como um grande monstro de vida”.

Urbano a mais não poder, Otto Lara Resende deixa entrever uma insuspeitada paixão pela natureza. Numa série de crônicas escritas por ocasião da conferência mundial Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, ele fala da curiosa circunstância de vivermos no que talvez seja o único país com nome de árvore (“Perigo do símbolo”); da defesa da Amazônia, na hoje atualíssima “O eco de uma voz”; e, em “O índio, nosso irmão”, nos faz rir com o aperto que passou quando uma jovem americana quis ser apresentada a um legítimo silvícola brasileiro.

Num time de cronistas preocupados com a preservação da natureza, Rachel de Queiroz pode dar a impressão de desafinar quando, em “Esplanada da Glória”, defende a ideia de que “precisa haver marca de mão de homem, pé de homem, coração de homem para dar interesse à natureza bruta”. Naquele ano de 1954, ela queria que se permitisse “aterrar mais um pouco a orla lamacenta” da baía de Guanabara. E antevia o aterro da Glória, “onde mais tarde haverá jardim, museu e teatro”. Quem, hoje, diante dessas maravilhas, não entenderia o entusiasmo por vezes agressivo com que Rachel defendeu o aterramento de uma faixa do litoral carioca?

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Em tempo: chamamos a sua atenção, se ainda for preciso, para a incorporação do mineiro Antônio Torres (1885-1934) a um time composto agora por uma dezena de cronistas de alta qualidade. Difícil escolher por onde começar a leitura de sua prosa cativante. Mas se você está entre os que chamam mãe de progenitora, recomenda-se optar por uma crônica que não seja “Preconceito de linguagem...”.