A mulher, no seu dia e sempre

Profissionais de uma danceteria, 1955 circa. Foto de José Medeiros/ Acervo Instituto Moreira Salles

No momento em que o calendário traz de volta – 8 de março – o Dia Internacional da Mulher, fique aqui a sugestão de peneirar neste Portal um pouco do muito que sobre ela escreveram nossos cronistas. Para descobrir, entre outros achados, que poucos o fizeram com a assiduidade de Rubem Braga, o maior de todos. E descobrir também que, curiosamente, em seus enredos o Sabiá da Crônica quase nunca nos parece estar vivendo um amor correspondido.

 No caso extremo de “Sizenando, a vida é triste”, por exemplo, ei-lo deitado, em manhã chuvosa, a imaginar sua inalcançável Joana, “meio tonta de uísque”, aconchegada àquele “palhaço”. A frustração do Braga não chega a tanto ao se ocupar de misteriosa dama, “A primeira mulher do Nunes”, de quem amigos lhe falam como alguém que era preciso conhecer, e que certa vez teria perguntado por ele. Um dia até julgou vê-la, sentada num banco de praça. Mas disso não passará sua fantasia com aquela “estrela perdida para sempre em remotos horizontes”.

O radar do Velho Braga terá um pouquinho mais de sorte ao captar, em “O verão e as mulheres”, no ensolarado período transcorrido entre a “véspera do solstício, em 20 de dezembro”, e “as imediações do Carnaval” uma criatura especialmente merecedora de sua atenção – sem que, no entanto, tenha havido entre os dois, nesse tempo todo, algum contato além do visual, e assim mesmo unilateral, pois provavelmente o alvo de seu olhar não lhe dignou retribuir-lhe a atenção. (Caiba aqui um parêntese-sugestão: ler esta crônica em sua publicação original, quando o título era “Outono”, cujo velho recorte de jornal, aqui disponível, traz, qual benfazejas cicatrizes, anotações à mão de Rubem Braga). 

Mais próxima do cronista, e quem sabe até abordável, a jovem protagonista de “Viúva na praia”, que ele conhecia de vista e que agora, em manhã de sol, na óbvia ausência de marido, é possível observar de modo mais desinibido. Ali está ela, ao alcance de seus olhos, a brincar nas areias com o filhinho. Estará ao alcance também das mãos do embevecido cronista? Mais fácil seria dizer se Capitu traiu ou não Bentinho em Dom Casmurro. O adultério, por falar nisso, é um tema que aparece insinuado em “Mulher de nariz arrebitado”, de Antônio Maria, história na qual um marido que pulou a cerca se dá conta de que pode ter recebido da esposa um troco tão afrontoso quanto inesperado.

Todo cronista, sabemos, tem um componente voyeur, bem próprio do gênero, e que por isso está longe de ser exclusividade de Rubem Braga. Ivan Lessa, em “Manequim, osso e pele”, é um olhador implacável ao esmiuçar o que considera “desarmoniosa elegância” das beldades num desfile de moda – perfeitas demais, avalia, pois a elas faltariam “um salto quebrado”, um “erro”, uma “imprecisão”, algum “excesso de proteínas”.

Já Paulo Mendes Campos, que mesmo em prosa é poeta, dispara comparações, por vezes desconcertantes, em “A garota de Ipanema” – não necessariamente aquela moça que na vida real, em 1962, inspirou o clássico de Tom e Vinicius. Num tempo em que o politicamente correto não despontara ainda no horizonte, o cronista enumera o que lhe sugere a figura da moça – um faisão real, por exemplo, a primavera, a melhor poesia, uma gaivota, um gol de Pelé e até mesmo o colesterol, “porque aumenta a pressão arterial” do homem que a vê passar.

Por outros motivos, é claro, Rachel de Queiroz também se entusiasma quando fala, em “Dona Noca”, a maranhense Joana Rocha dos Santos, de quem o acaso fez prefeita de uma cidade em seu Estado e que, entre outros atributos, possui uma “altivez encoberta pela doçura firme”, de quem “aprendeu desde menina a mandar, a tomar decisões e a fazer escolhas”.

Clarice Lispector, em “A antiga dama”, também pinta um retrato de mulher vivida – bem diferente, contudo, da vitoriosa Dona Noca. “Havia uma majestade e soberania naquele grande volume sustentado por pés minúsculos, na potência dos cinco dentes, nos cabelos ralos que, escapando do coque magro, esvoaçavam à menor brisa”, descreve Clarice com duro realismo. E nos emociona ao narrar um breve “clarão de inútil felicidade” vivido pela personagem na pensão qualquer onde vai acabando seus dias.

Tamanha tristeza encontrará compensação na prosa tantas vezes jovial de Fernando Sabino, de quem se convida a ler, por exemplo, “A mulher vestida”, sobre o fuzuê provocado, em frente a um shopping center de Copacabana, por fantasias masculinas tão desvairadas quanto equivocadas. Ou o caso de “Dona Custódia”, sobre as surpresas à espreita de quem um dia contratou uma velha e recatada senhora para trabalhar em sua casa. Ou, ainda, “A condessa descalça”, comédia digna de filme, inspirada numa história verídica que Otto Lara Resende contou a Sabino – numa carta, aliás, não menos deliciosa, que se recomenda ler nas páginas 52 a 59 de O Rio é tão longe, o livro que reúne a saborosíssima correspondência de Otto a Sabino.

Leia-se também, por fim, um pouco como documento de um tempo em que o machismo e a homofobia reinavam desabridos, “Crista ou Crista?”, em que um cronista das antigas, Antônio Torres, registra “uma coisa estranha” na programação da Semana Santa de 1916: a escolha de uma mulher, a atriz Itália Fausta, para viver na peça “O mártir do Calvário” o papel de Jesus Cristo. Sarcástico, ele imagina que, se assim é, a Maria Madalena da montagem poderia ser um “macho”, “para não perturbar o equilíbrio do mundo”. E não perde a oportunidade de dar lambada em sua vítima predileta: propõe que o papel da pecadora arrependida seja confiado a Paulo Barreto, nome de pia do escritor João do Rio, cuja homossexualidade Antônio Torres não se cansava de expor e ridicularizar.