A solidão e a sozinhez

Ian, São Paulo-SP, 1963. Foto de Otto Stupakoff/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Neste momento em que estamos – ou deveríamos estar – enclausurados em casa, muitos de nós sem quem nos faça companhia, há quem sinta falta, também, de palavras que em língua portuguesa deem conta das nuances embutidas na condição de quem está sozinho. Não nos basta, de fato, o substantivo “solidão”, sobrecarregado na empreitada de expressar estados sutilmente diversos. Problema que não tem o idioma inglês, servido por loneliness, aplicável quando a falta de alguém ao lado seja um peso no corpo e na alma, e também por “solitude”, para aqueles casos em que estar sozinho, longe de ser um peso, pode ser desejável. Até existe em português o termo “solitude”, mas como sinônimo menos utilizado de solidão. Fique aqui a sugestão de nos apropriarmos da palavra “sozinhez”, criada por Paulo Mendes Campos na delicada, deliciosa crônica “Para Maria da Graça”, e de injetarmos nela a ideia, que ali não está, de uma solidão, digamos, benigna, bem diversa daquela, pesada, que nos faz sofrer.

A leitura de nossos cronistas pode deixar mais clara, se preciso for, essa ideia de que há solidão boa e solidão ruim. Paulo Mendes Campos, já que falamos nele, escreveu sobre a solidão pesada – na belíssima “Talvez”, na verdade um poema em prosa, em que “as barreiras do mundo” se fecham sobre um homem. Ou em “O galo”, crônica de juventude (Paulo andava então nos 24 anos), na qual, vendo “esfacelar-se” nas esquinas o grupo de amigos com quem cruzava a madrugada, o personagem termina por se ver “sozinho com o seu destino”. Mais aflitiva ainda, “Um homenzinho na ventania”, crônica extensa em três partes, acompanha, como se fosse câmera, a errância de um homem nas ruas do Rio de Janeiro, tangido pela embriaguez e por um vendaval tremendo, no dia em que, melancolicamente, chegava aos 40 anos de idade. Melancolia que impregna também “A metamorfose às avessas”, história de um inseto que, na contramão da novela de Franz Kafka, acorda convertido em ser humano e mergulha num mal-estar, para ele inédito, a que dá o nome de “alma”.

Já Rubem Braga se divide entre a solidão e a “sozinhez”. A primeira transparece, por exemplo, em “A mulher esperando o homem”, na qual a personagem se vê “sujeita a muitos perigos entre o ódio e o tédio, o medo, o carinho e a vontade de vingança”. Situação que o Braga assim resume: “A mulher que está esperando o homem recebe sempre a visita do diabo, e conversa com ele. Pode não concordar com o que ele diz, mas conversa com ele”. Também é triste “A grande festa”, sonho que bruscamente se converte em pesadelo. Em “Fim de ano”, ao contrário, sente-se bem o cronista, desacompanhado, mas não solitário, numa passagem de ano: “Sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas”. Em “Cartão”, a sós na sua varanda, ele se inunda de satisfação ao se lembrar de que naquele dia recebeu um cartão enviado de Paris por uma amiga recente: “Como é fácil alegrar meu coração!”. Em “A casa”, por fim, sonha com morada ideal, na qual haja “um canto bem escuro” em que “possa ficar sozinho, quieto, pensando minhas coisas”.

Em “Solidão”, de Rachel de Queiroz, abrigado num “hospital silencioso e rico”, um homem preferiria estar “numa enfermaria pública, à beira-rua”, na qual tivesse “o conforto da companhia humana, as delícias da promiscuidade”. Quanto a Otto Lara Resende, em “A solidão proibida”, lamenta o fato de já não haver “lugar no mundo para as almas solitárias”. Está em sintonia com Antônio Maria, que em “Despedida” anseia por um lugar em que lhe seja permitido desejar “ser só”. Na antológica “Amanhecer no Margarida’s”, o cronista, fechado numa despovoada intimidade, se felicita: “Que delícia estar sozinho!” É até possível ser feliz em companhia de outra pessoa, reconhece – “mas é uma felicidade de renúncia, como a do cristão que reza de joelhos, morrendo de dor, nas rótulas e nos rins”.  E conclui: “A grande felicidade seria a de estar-se inteiramente só, em companhia de alguém”, uma vez que “nunca se é rigorosamente feliz quando se está perto de alguém”. Matéria de reflexão, quem sabe, a dois ou não, para os vagares destes dias de reclusão forçada...