
Trabalhadores descarregando barco, Bom Jesus da Lapa, rio São Francisco-BA, 1947. Foto de Marcel Gautherot/ Acervo Instituto Moreira Salles.
Fazia um calorão de 40° no Rio de Janeiro naqueles princípios de 1949, conta Rachel de Queiroz na crônica “O calor e o trabalho”. O ar morno estava tão espesso que dava “para ser apanhado às colheradas”. O mar, lá no fundo, parecia “uma lâmina de estanho lisa” espelhando fogo, e até os pássaros evitavam a fadiga do voo naquela fornalha. Mas os homens, sem outra escolha, labutavam – “erguem paredes, misturam massa, soldam aço, derretem asfalto, britam pedra, varrem ruas, descarregam navios, capinam o chão e cavam a terra”.
Para os trabalhadores, pobres mestiços e caboclos, subalimentados, maltrapilhos, sofrendo de “doenças mal curadas”, não havia possibilidade de descanso. Nem sombra, nem água fresca. Enquanto isso, os patrões brancos e endinheirados refugiavam-se em Petrópolis, onde o termômetro é mais compreensivo, em cinemas refrigerados e confeitarias, “tomando toneladas de sorvete”.
De sua casa, na Ilha do Governador, Rachel avistava uma pedreira onde funcionários quebravam matéria-prima para os calçamentos das ruas. Pegavam “oito horas por dia no sol escaldante”, manejando dinamites, marretas e britadeiras que “na hora do sol forte tiram fogo, literalmente”. O que ganhavam não dava para muito, e no entanto, de verão a verão, lá estavam eles, suando no pesado.
Um pouco desse sufoco poderia ser amenizado se o Brasil se espelhasse em alguns vizinhos da América Latina. Em “Calor”, Rubem Braga lamenta que, de todas as horas do dia, escolhemos para trabalhar justamente “as mais quentes e desagradáveis”, como se o trabalho fosse mesmo um castigo “necessário tornar bem amargo”. Outros países, como o Paraguai, tratavam as horas de calor intenso como momentos de descanso. O cronista chegou a propor a Campanha da Sesta, e para dar exemplo, largou sua crônica acalorada pela metade, alojando-se dentro “de uma encantadora rede de tucum”.
Em “Sombra e água fresca”, o mineiro Otto Lara Resende relembra seus anos iniciais na condição de carioca. Para suportar o braseiro do verão no centro da cidade, onde ficava a sede do jornal em que trabalhava, o cronista aprendeu os caminhos da brisa e as ruas em que os prédios davam alguma guarida. Fez um mapa da sombra: na esquina do Café Simpatia, na avenida Rio Branco, por exemplo, tinha uma “brisa de lavar a alma”, e passando pela porta do cine Metro Passeio, aproveitava-se um restinho do hálito de ar-condicionado que vinha de dentro.
Contrariando alguns colegas e quem pouco tolera temperaturas altas, em “Festa, com brisa”, outra crônica sobre o assunto, Otto diz que o trabalho intelectual rende bem no calor, sim. Com tanto sol e tanta luz, “não dá pra ficar deprimido ou mal-humorado”. As almas e os corações comunicativos se dilatam, e as ruas se tornam um espetáculo compartilhado. “Qualquer sombrinha vira um oásis” e, de quebra, vem a brisa, “que é preciso fazer por merecer”. “Então viva o verão”, concluiu o cronista, “e o Carnaval que vem aí”. Que seja quente, como convém. E preguiçoso, sem um dia de trabalho sequer.
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Nota do editor: A partir de fevereiro, como parte de uma reformulação do Portal da Crônica Brasileira, a coluna “Rés do chão” passa a ser publicada uma vez por mês, todo dia 15.