Viagens à infância

Sef e Simone, Praia da Joatinga, Rio de Janeiro, 1978 circa. Foto de Otto Stupakoff/ Acervo Instituto Moreira Salles

A nostalgia não é mais o que ela era, escreveu o americano Peter De Vries no romance The tents of wickedness, de 1959, pondo em circulação uma pérola que a atriz francesa Simone Signoret, 20 anos depois, vai incrustar como título em seu livro de memórias. 

Sobrecarregado de saudosismo, o achado resiste, com jeito de coisa sem dono, capaz de resumir o sentimento que se apossa de tantos de nós quando a memória regurgita lembranças da infância. E nem é preciso que se esteja, como agora, em clima de Dia da Criança, festejado a 12 de outubro. 

Uns mais, outros menos, todos os nove autores de nosso Portal destilaram recordações de meninice em suas crônicas. 

O mais antigo deles, Jurandir Ferreira, nos leva, em “A viagem”, num passeio de trem que fez aos 4 anos, entre a mineira Poços de Caldas, sua cidade natal, e a Estação Cascata, na paulista Águas da Prata, ali por 1910. A nostalgia em que o cronista está embarcado não impede que lhe venha uma comparação galhofeira: “Bufava, ardia e fumegava o trem como uma pesada e distinta senhora com rodas e fornalha.”

Ivan Lessa, o mais jovem do time, nos traz, em “São Paulo: 1945”, fragmentos de lembranças da cidade onde nasceu e que, naquele ano, aos 10, trocou pelo Rio de Janeiro. “Cavalo e carroça na esquina carregados de uva”, recorda ele, “o homem das cabras na porta vendendo leite”, “a garoa, a chuva de tarde”, o “cimento quente” do qual emana “um respirar úmido de corpo.” 

Paulo Mendes Campos, como Jurandir Ferreira, não tem mais que 4 anos em “Um saco de confetes”, e perambula num “bosque de pernas” de gente grande, em meio a um baile de carnaval – até que uma folgada, entre carinhos, surrupia o seu tesouro, a prenda que dá nome à crônica. Só lhe resta descontar noutro inocente o sentimento de quem foi ludibriado.

Antônio Maria, pernambucano de nascimento, e Clarice Lispector, pernambucana postiça mas apaixonada (lá viveu anos cruciais de sua formação, entre os 4 e os 15) desenterram lembranças de um tempo que compartilharam, a década de 1920. O cronista e compositor nos carrega com ele, em “O exercício de piano”, para remoto mês de junho em que tomava aulas de música, extraindo sons que se somavam a outros numa inesquecível trilha sonora: durante o dia, “a voz do sorveteiro, lá longe, triste, mendiga, musical”; à noite, o estrépito dos bondes amarelos da Pernambuco Tramway. Os mesmos bondes que a menina Clarice tomava, madrugada ainda, rumo à praia em Olinda ou Recife. “Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo”, revela em “Banhos de mar”, e resume: “Eu não sei da infância alheia, mas essas viagens diárias me tornavam uma criança completa de alegria.” 

Rachel de Queiroz, mãe de filha que perdeu bem cedo, vive em um “Amor à primeira vista” o consolo de tomar no colo um bebê que “cheira a flor e talco”, e mais ainda “a fruta madura, talvez a maçãs no momento em que são colhidas, talvez àquelas uvas que dão vinho rosado, doces e queimadas de sol.” 

O passarinheiro Rubem Braga papeia na praia com alguém possuído por amor igual – um garoto de dez anos, filho de um amigo, disposto a tudo para dele obter um curió, um melro ou um coleirinha.

Incitado, quem sabe, por palavras trazidas à moda, como ciclovia ou bicicletário, Otto Lara Resende, em “Bicicletai, meninada!”, sobe na bike imaginária que o devolverá a uma época há muito passada, na qual “quem não sabia andar de bicicleta estava atirado às trevas exteriores”, “excluído do mundo encantado”. Reconstitui um “surto de infância” que o apanhou já adulto, no Rio de Janeiro – uma febre na verdade coletiva que o punha a pedalar, madrugada adentro, do Posto 5 ao Leblon, irmanado com Vinicius de Moraes, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Moacir Werneck de Castro. Foi naquelas farras sobre duas rodas, acredita Otto, que Vinicius se inspirou para um poema célebre, “Balada das meninas de bicicleta”.

Em “A vitória da infância”, dois homens feitos se deparam com dois moleques num jogo de gude, e ali se deixam ficar – tão envolvidos que acabam desafiados por um deles para um jogo de duplas. De um dos marmanjos não se sabe o nome. O outro, chegado ao mundo num Dia da Criança, não por acaso é aquele que bolou seu próprio epitáfio: “Aqui jaz Fernando Sabino. Nasceu homem, morreu menino”.