Os ritos da amizade

Sem título, Diamantina, MG, c. década de 1910. Foto de Chichico Alkmim / Acervo Instituto Moreira Salles

Disse alguém que o teste decisivo de uma amizade genuína é a capacidade de calar-se na companhia de quem se gosta, sem a precisão de a todo custo preencher espaços que no convívio poderiam sugerir vazio, falta, defeito a tisnar a relação. Sabia disso Rubem Braga – e aí está “Os amigos na praia”, vinheta irretocável em que três velhos camaradas, “três animais já bem maduros”, não se sentem obrigados a administrar conversação; para manter-se aceso, o fogo da amizade não carece de papo, bastando o fato “de estarem juntos respirando o vento limpo do mar”.

Quem sabe um dos companheiros do Velho Braga naquela manhã de sol não teria sido Antônio Maria? Acaso não seria: na abertura de seu “Diário”, o cronista pernambucano fala dele como sendo “a amizade que mais prezo”. A tal ponto se sente Maria ligado àquele “homem seco e difícil”, capaz no entanto de tratá-lo com “carinho comovente”, que “numa declaração de bens citaria, entre as primeiras coisas: ‘Conto com a amizade de Rubem Braga’”. Está disposto a tudo para cuidar do laço precioso, até por não ter ilusões: “amizade, quando quebra, é como perna de cavalo: não conserta mais”.

Menos derramada, vai no mesmo tom Rachel de Queiroz, quando observa, nas linhas de “Amigos”: “Pode haver nada mais confortável neste mundo do que um amigo velho? – e não deixa dúvida de que está falando de “velho amigo”: “Não tem surpresas conosco, mas também não espera de nós o que não podemos dar”.

Durona, Rachel talvez não tivesse a capacidade de amealhar amizades, sem distinção de faixa etária, que teve Otto Lara Resende – de quem, aliás, recomenda-se ler, já neste 1º de maio, em que o escritor mineiro estaria chegando aos 97 anos, a crônica “Bom dia para nascer”. Foi com ela que iniciou, em 1991, sua breve fulgurante passagem pela Folha de S.Paulo, na qual pingou quase 600 textos, cujo sumo seria peneirado, postumamente, para o livro que se chama, exatamente, Bom dia para nascer. 

Seja nessa coletânea, seja nos perfis reunidos em O príncipe e o sabiá, Otto encanta pela fartura e diversidade de afetos em seu coração – a começar por amizades cinquentenárias como as que o ligaram a Fernando Sabino (“Um escritor, uma paixão”), a Murilo Rubião (“Seus amigos e seus bichos”) e a Paulo Mendes Campos. A este, que Otto conheceu aos 15 anos – e que, entre outras novidades, lhe apresentou o uísque... –, há que ler “Chegamos juntos ao mundo”, crônica escrita na morte de Paulo, e também “O jovem poeta setentão”, publicada no dia em que ele teria chegado aos 70 anos.

Do próprio Paulo Mendes Campos, poeta também em prosa, fiquemos aqui com “Pequenas ternuras”, tocante enumeração daquilo que o cronista chamou de “presidiários da ternura”. Quem, por exemplo, “coleciona selos para o filho do amigo”; que “se lembra todos os dias do amigo morto”; toda criatura, em suma, que “jamais negligencia os ritos da amizade”.