Viajar, em mais de um sentido

Praia de Copacabana, Copacabana, Rio de Janeiro, 1946. Foto de Thomaz Farkas/ Acervo Instituto Moreira Salles

Assim como qualquer um de nós, que os lemos aqui na planície, também os grandes cronistas, na volta das férias, costumam trazer lembranças de viagem. A diferença é que, além de souvenirs convencionais, entre elas pode haver recordações em forma de literatura.

Às vezes nem memórias são, mas fantasias que uns dias vividos fora da base têm o condão de atear em nós, em especial quando se trata de profissionais da imaginação. 

Penso, ao acaso, em Rachel de Queiroz, viajante que, ao lado de impressões trazidas do estrangeiro – veja “Suíça” e “Ir à Europa”, por exemplo –, algumas vezes se deixou levar, na hora de escrever, por algo que não trouxera na bagagem física. “A criatura”, escreveu ela na crônica “Férias”, em 1957, “passa exatamente um mês e dez dias longe do Rio e sua civilização – e, na volta, tem a sensação de que “nada aconteceu” em sua ausência. Coisas de Brasil, acredita a romancista de O brasileiro perplexo, de “uma terra onde nada acontece”, e “ao mesmo tempo tudo pode acontecer...” 

Sob o mesmo título, nove anos antes – 1948 –, e sem ter posto os pés na estrada, Rachel desatara fantasias de uma revisita ao Ceará natal. “Até me dá água na boca, pensar numas férias passadas assim debaixo de um cajueiral à beira da lagoa de Messejana”, delira ela, e vai em frente: “Se for em tempo de caju é só estender a mão, colher o fruto, chupar”, tendo acima da cabeça “o céu azul de Nosso Senhor” e, sob os pés, “a areia branca daquele chão que já foi fundo de mar.”

Não raro o cronista, ao garimpar lembranças, viaja não no espaço, e sim no tempo – como faz o pernambucano Antônio Maria em “Meus primos”, sobre uns meninos “feios” e “loucos” com os quais costumava passar as duas férias do ano, numa propriedade herdada do avô usineiro e que, empencada de dívidas, em breve seria preciso vender a preço de nada. Tudo, nessa viagem no tempo, é para ele inesquecível, e também dolorido: “São estas as pobres e perdidas recordações embora sem ternura para os outros de que me sirvo nos dias de saudade”, escreve o Maria, então em seus 32 anos de idade, “única maneira de voltar ao moleque da campina, que não sabia nada e era o rei de tudo”.

Rubem Braga, aos 34, também volta (mas, ao contrário de Antônio Maria, não apenas em imaginação) à cidade onde nasceu – e registra, na pungente “Em cachoeiro”, as impressões fortíssimas de estar de novo na casa em que se criou. “Estou cercado de lembranças – sombras, murmúrios, vozes da infância, preás, nambus e sanhaços”, enumera o Braga, abrindo seu baú capixaba. “Uma parte desse mundo perdido ainda existe, e de modo tão natural e sereno que parece eterno; agora mesmo chupei um caju de 25 anos atrás.” E conclui: “Parece que toda minha vida fora daqui foi apenas uma excursão confusa e longa: moro aqui.”

O mineiro Paulo Mendes Campos, que na maturidade se mostrará igualmente nostálgico da infância e juventude belo-horizontina, está, aos 29, carregado do bom humor que sempre foi uma de suas marcas. Num ônibus que o leva de Niterói a Araruama, em 1951, ele é todo olhos e ouvidos para algumas das figuras que ali estão; entre elas, certa mulher gorda que “diz coisas engraçadas com uma voz horrível, cortante”. O que seria preferível para aquela criatura, pergunta-se o cronista em “Itinerário de férias”: “ser espirituosa com uma voz desagradável ou dizer tolices com uma voz doce”? Na monotonia da viagem, Paulo escarafuncha também a paisagem, e a certa altura, divertido, se dá conta de que “os cães da roça já não correm atrás dos automóveis”, como antigamente. 

Em outra jornada, essa bem curta, do Leblon ao centro do Rio de Janeiro, relatada em “Era um turista...”, o cronista observa um turista estrangeiro que sucessivas vezes se levanta e cede assento a senhoras que vão embarcando, para mais adiante, vagando um assento, voltar a se sentar – até que, ao perceber que é o único macho a bordo a se incomodar se há mulher em pé, simplesmente renuncia do cavalheirismo e, a exemplo de todos aqueles brasileirinhos, termina a viagem sentado. 

Não menos mineiro do que Paulo Mendes Campos, e igualmente bem-humorado, Otto Lara Resende, em “Turista, mas secreto”, acha graça na notícia de que no Recife andavam, “em segredo”, nada menos de 1.800 turistas alemães. Na tentativa de evitar assaltos, “o desembarque foi sigiloso, como sigilosos foram os passeios que todos deram por Olinda e Recife”, conta o autor de Bom dia para nascer, acrescentando que na praia da Boa Viagem, para não chamar a atenção, decidiu-se dividir o pessoal em pequenos grupos. “Está me cheirando a piada”, diz o cronista – e desafia alguém a lhe explicar “como é que é que 1.800 alemães podem passar despercebidos no Recife e Olinda”. Endiabrado, como de hábito, não haveria Otto de perder a oportunidade de apanhar a deixa por ele mesmo levantada: “Imagine um prussiano, daquele tamanhão, confundido com um gabiru”.