Frutos da chuva

Água de chuva, Londrina-PR, 1949. Foto de Haruo Ohara/ Acervo Instituto Moreira Salles

Nascida numa região do Brasil em que tantos vivem de olho nas alturas, na esperança de salvadoras gotas d’água, Rachel de Queiroz um dia se pegou a reclamar justamente daquilo que os céus despejavam então sobre o Rio de Janeiro. Não era para menos: naquele verão de 1947, conta ela em “Chuva”, a impressão que se tinha é de que nunca mais teria fim o aguaceiro que encharcava o antigo Distrito Federal. 

A Ilha do Governador, onde Rachel morava, lhe parecia prestes a se dissolver no mar, como torrão de açúcar. “Chuva miúda, chuva graúda, chuva inimiga, fria e molesta, que traz doença”, queixa-se ela numa crônica cujo título só poderia ser... “Chuva”. Não lhe bastasse o dilúvio incessante, numa daquelas noites veio assombrá-la um pesadelo em que se via presa num submarino, embarcação que desde sempre lhe causava “um grande terror mórbido”. Razão a mais para choramingar: “A gente pede a Deus misericórdia, implorando que a chuva pare” – e em seguida se dar conta da ironia da situação em que se vê metida: “Quem havia de dizer, cearense sem querer mais chuva”. 

Rubem Braga, em outro verão, também reclamou – não de aguaceiro, como Rachel, mas de uma chuva que caía “sem convicção”, num literal chove não molha “que nem sequer refresca, apenas aborrece”, daí resultando aquilo que daria título à crônica: “Mormaço”. Rendido, o cronista entrega: “Já não amo ninguém, é impossível amar com mormaço – e, desalentado, propõe: “Vamos todos deixar a vida para amanhã.”

Não é muito diferente o ânimo de Otto Lara Resende quando, na serra fluminense, tendo fugido do calorão do Rio, percebe que foi cair num quase extremo térmico e meteorológico. Estava crente que o verão viera para ficar – e eis que agora está imerso num “inverno molhado”, o que o faz sentir-se “traído”. Entre espirros, conta Otto, ele se vê de “nariz colado na janela” e de “lareira acesa”, a contemplar, lá fora, nada menos que “um postal suíço”. Se para tal tristeza não há remédio à vista, algum consolo talvez haja – na palavra, quem sabe, com que se fecha o título da crônica: “Chuva, chave e pastel”. Além desta, aliás, recomenda-se não apenas ler como também ouvir, com tempo bom ou não, a deliciosa “Entreato chuvoso”, do mesmo Otto.  

Mas nem tudo são sombras quando nossos craques se ocupam daquilo que para tantos é “mau tempo”. O Rubem Braga que vimos irritado em “Mormaço”, por exemplo, nos aparece quase jubiloso em “Cordilheira”, uma das crônicas que escreveu no Chile, no período em que chefiou em Santiago o escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil, nos anos 1950. A bendita chuva, que por meses não dera as caras, teve o condão de deixar “o ar mais fino”, e de tornar ainda mais bela a cordilheira que emoldura a capital chilena, “essa imensa muralha azul toucada de neve que brilha ao sol”.

Um ano antes, quando uma tempestade causou pesados danos no Rio de Janeiro, o Braga pudera ver, em meio à devastação, uma contrapartida de felicidade. “A infância pobre do Rio, sempre esquecida, teve ontem um lindo dia de folga e festa”, registrou o cronista em "Chuva"; uma “desculpa para não ir à escola e divertimentos animados na grande alegria das enxurradas”. Só lamentou que ele próprio tivesse saído de casa calçado e “com 30 anos de idade mais do que o conveniente”. Não fosse assim, “faria o que os meninos descalços eu vi fazendo: entraria na enchente, patinaria na lama, soltaria na esquina meus barcos de papel, e me divertiria imenso com a aflição da gente grande a empilhar trastes e móveis no andar térreo”.

Em outra ocasião, tomado pela preguiça de escrever, foi à chuva que Rubem recorreu para encher seu espaço no jornal. Chuva alheia, na verdade, pois, sem maior cerimônia, ele assumidamente “roubou” do amigo Pablo Neruda um texto a seu ver “capaz de comover a qualquer um que já morou em casa antiga”. Não se fica sabendo se o título da crônica, “Goteiras”, é criação sua ou também foi surrupiado. Nele, o poeta chileno relembra sua mãe a espalhar “bacias, vasos, jarros, latas” pela precária residência da família, tão logo começava a chover. “As goteiras”, comparou Neruda, “são o piano da minha infância”, a música que o acompanharia pela vida inteira, aonde quer que fosse. 

Quanto a Antônio Maria, este recolheu água a cair do céu e dela fez pretexto e moldura para delicadas “Notas da chuva” – às quais não faltam pérolas como esta: “A água é bela e jovem. Ninguém a envelhecerá. Ninguém a prenderá para sempre”. Ou esta outra, um tanto fora da moldura, mas da qual ninguém vai reclamar: “A carne não mente. Apesar da má companhia em que vive, ainda não chegou à perfeição desse erro”.

O mesmo Antônio Maria, por fim, requisitou pingos de chuva para, em “O último encontro”, dar retoques de cenógrafo perfeccionista à melancólica cena final de uma história de amor – de “um amor de dentro para fora que, além de sentimentos, tinha mãos e dentes”. Faltava uma “chuva morna que caiu de repente”, na qual a moça “se teria deixado molhar”. Pois a personagem, justifica o cronista, “desde que os cabelos lhe escorram molhados pelo rosto, pode ser triste, trôpega, hesitante, como fica bem a todos os personagens, depois do último encontro”.