Quem conta um sonho

Art Center College of Design, Los Angeles, Estados Unidos da América, 1953 circa. Foto de Otto Stupakoff/ Acervo Instituto Moreira Salles.

“O psicanalista é uma comadre bem paga”, cravou certa vez Otto Lara Resende, quem sabe para bulir com aquele que foi o seu maior amigo, o psicanalista (e bom poeta) Hélio Pellegrino. E não é impossível que Hélio estivesse na roda de conversa de que Otto fala em “Solução onírica”, na qual o assunto são os sonhos. E haja assunto! “Hoje todo mundo sabe o seu lance de psicologia”, escreve o cronista. “Freud e Jung dão pé para qualquer palpiteiro”. Em dado momento, alguém sugere que cada qual conte um sonho. O de Otto foi sobre um camarada de suas relações, que dera de lhe pedir, com implacável insistência, que encaminhasse um pedido dele ao presidente da Câmara dos Deputados – o Rio era ainda a capital federal, e Otto tinha acesso fácil a todos os poderes da República. Constrangido, já não sabia o que fazer para pôr fim ao peditório – e eis que a solução lhe caiu do céu, sob a forma de um sonho em que o presidente da Câmara partia em viagem para o estrangeiro, deixando-lhe um excelente pretexto para neutralizar o chato.

O assunto fascinava Otto Lara Resende, que a ele voltou em outra crônica, “A chave do sonho”. Ali não tem comadre bem paga, não tem Freud nem Jung – e sim, para nosso pasmo e encanto, um gato que, segundo a família do cronista, era dado a sonhar, só não se sabe se com apetitosos camundongos. O bichano sonhador, de nome Zano, talvez sonhasse com aventuras, pois fugiu de casa – o que, aliás, levou Otto a escrever duas crônicas memoráveis: “Volte, Zano” e “Fuga do borralho”. Mas há mais do que felinos em “A chave do sonho”; capaz de se interessar por tudo, o cronista se ocupa ali, também, do que lhe ensinou um oftalmologista estudioso da matéria: que também os cegos sonham, de diferentes maneiras, com ou sem imagens, dependendo de ser sua cegueira de nascença ou não.

Já Rubem Braga, quando sonhava com gatas, tratava-se exclusivamente de gatas bípedes, digamos assim – entre elas, a bela mulher que, em “Madrugada”, se insinuou em seu sono, e cuja presença, já desperto, o picaria “como um inseto venenoso”. Ao acordar, o Braga está sozinho, e contempla uma poltrona que “abria os braços esperando recolher outra vez o corpo da mulher jovem”. Poderá chamá-la como queira – menos Aldebarã, o astro cintilante a que, num arroubo poético, em “A estrela", ele deu este nome. Novamente publicada, a crônica ganha título mais incisivo: “A nenhuma chamarás Aldebarã”. 

Num texto que se chama simplesmente “Sonho”, ambientado na Belo Horizonte onde o Velho Braga foi jovem (ali viveu dos 19 aos 20 e poucos), a seu lado caminha uma garota “singela e muito alta”, enquanto ele, fardado, segue rumo ao serviço militar. “Marcha, soldado, cabeça de papel”, canta a linda criatura, dando a ele a ilusão de que haveriam de marchar “eternamente pelas ruas do mundo”. Bem mais real é a namoradinha cuja aparição, em sonho, em “A longamente amada”, lhe devolve a lembrança de um dia em que ela o presentou com uma fotografia que trazia guardada no seio. Mas há também pesadelos nas noites do cronista, e um deles desenrola para ele imagens de uma tragédia ocorrida dias antes, quando um incêndio destruiu o Hotel Vogue, em Copacabana. “Vejo os homens que se atiram e se esborracham”, registra Rubem em “Madrugada II”.

Rachel de Queiroz, como o Braga, dedicou copiosas crônicas aos filmes que o inconsciente passa para nós quando dormimos. Num deles, contado em “História de sonho”, ela está em Portugal. Foi bonito, avalia Rachel – que no entanto teme “os amigos interpretadores, capazes de tirar uma história-de-sete-cabeças dos sonhos mais inofensivos”, pois “hoje em dia não há quem não tenha as suas tinturas de psicanálise e não entenda de sonhos”. Resultado: “Ninguém mais sonha, com receio dos freudistas”. 

Ela mesma vai se desmentir numa crônica a que deu o mesmo título, “História de sonho”. Intrigante história, por sinal, transcorrida na Provença, onde cruza no caminho com um padre e uma velhinha de preto. Ao cabo de uma tentativa de diálogo, o sacerdote cai de joelhos, “segurando a saia preta da velha” inflexível – ao mesmo tempo em que surge na paisagem “um menino de blusa larga, a descer lentamente a ladeira suave, e a tocar uma flauta de bambu”. “Por que sonhei aquilo?”, pergunta-se Rachel, “aflita e sem fôlego”, e constata que está deitada na rede sob a mangueira, em sua casa na Ilha do Governador. Em vez de flauta, cantoria de cigarra. 

“A gente não regula os seus sonhos”, dirá a escritora cearense em “Maria Antonieta”; “o mais que pode fazer é confessá-los, arrostando o perigo das interpretações dos psicanalistas”. No caso, nem seria preciso tanto: sob os traços da desditosa rainha da França, que reencarnou como homem e foi nascer em Diamantina, transparece, sem que se lhe diga o nome, a figura de Juscelino Kubitschek, nativo dessa cidade mineira, e que àquela altura (o ano é 1957), presidente da República, se empenha na construção de Brasília. Para Rachel de Queiroz, que não ocultava antipatia por JK, aquela Maria Antonieta rediviva “ergue seu novo Trianon no planalto goiano”.

Mais amigável é o Paulo Mendes Campos que, em “No domingo de manhã...”, passeia em companhia de certa “moça estrangeira” recém-chegada ao Rio – na qual é difícil não ver a modelo inglesa Joan Abercrombie, com quem o poeta e cronista mineiro se casou no início dos anos 1950, e que será também, quase se pode apostar, a gringuinha que ele levou um dia a Belo Horizonte apenas para lhe apresentar um superlativo da confeitaria mineira, conforme conta na deliciosa “Bolinho de feijão”. Naquele domingo, Paulo vai com a moça a General Severiano, o estádio de seu Botafogo, de onde se pode contemplar, mais que um jogo de futebol, o espetáculo de um pão de açúcar não comestível – um dos adereços da paisagem carioca que haverão de povoar seu sonho quando, à noite, depois de “uma ceia e de um beberico modestos”, o cronista se estender ao lado da moça, protagonista, é claro, daquele tour onírico.