Dores da criação

Telhas, série Recortes, São Paulo, 1952. Foto de Thomaz Farkas/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Certas crônicas, de tão irretocáveis, podem dar a impressão de que simplesmente fluíram para o papel ou tela, como se o autor, sem qualquer sofrimento, tivesse tido apenas o trabalho de transcrever o que lhe dava a ler um teleprompter da literatura. Desnecessário lembrar que só por milagre poderia ser assim. Não há escritor que não saiba que escrever costuma ser horrível, como disse a americana Dorothy Parker, craque do ofício, e que bom mesmo é “ter escrito”. 

Paulo Mendes Campos sabia disso. “Assim como em um edifício não fica sinal do sofrimento dos que o levantaram, assim não vemos além das bibliotecas a raiva dos que as escreveram, os desânimos, os desesperos, o nojo de escrever”, observou ele numa crônica inédita em livro, “Tenho pena da mulher...” Em outra, “Um conto em 26 anos”, Paulo comemora o ponto final de “O convidado”, do amigo Murilo Rubião, obra-prima da ficção curta que ele vira brotar quase três décadas antes.

Sabedor das dores da criação literária, até por isso o poeta e cronista mineiro cuidava de fazer um ninho para a sua arte. Nos muitos pousos que teve no Rio de Janeiro, Paulo Mendes Campos, ao se instalar, tratava de pôr junto à janela a sua mesa de trabalho. Pois esse retângulo aberto sobre a paisagem, defende em “Minhas janelas”, “também faz parte do equipamento profissional do escritor”. Através dele viu coisas, muitas coisas – só não viu, lamenta, “a mulher nua que os outros homens já viram de suas janelas”.

É também com bom humor que PMC, em “Escrever à noite...”, se lembra do tanto que penou enquanto teve como vizinho de cima um camarada cuja ruidosa máquina de escrever, madrugada adentro, atrapalhava a sua própria criação. Além de barulhento, o barbicha era versátil: “Pelas diversas cadências de sua Remington”, o cronista pôde concluir que o confrade, “um paladino, um cruzado da literatura”, praticava todos os gêneros literários, ao contrário dele, “um mercenário, a soldo módico.” Suas armas não eram menos diversas: “A máquina dele era uma metralhadora pesada; a minha apenas um pobre fuzil de repetição”.

Rubem Braga, como tantos, também passou por momentos ruins na escreveção noturna, mas por motivos outros: ao contrário do vizinho de PMC, ele certa noite precisou recorrer à caneta, para não perturbar os hóspedes do hotel. “Escrevo mal à mão”, queixou-se o Braga em “Madrugada”, “sou um trabalhador afeito à máquina, como um tecelão”. Nessa condição, arriscava-se a um puxão de orelha da colega Rachel de Queiroz, para quem “o homem moderno, mormente o escritor”, escravizado à máquina, “está ficando analfabeto”, pois “desaprendeu a escrever à mão”. Vai além Rachel, em “Ao pegar da pena”: “Quem só trabalha ajudado por equipamentos fabricados, acaba feito escravo deles”.

Para a escritora cearense, o ofício literário, fosse ele praticado à mão ou à máquina, não parecia atividade a se recomendar – sobretudo às moças, às quais ela se dirige numa crônica cujo título já dá o recado: “Não escrevam”. Chega a falar em “ofício sórdido” e em profissão “miserável”. E não parece ter dúvida quanto ao que as jovens aspirantes à literatura deveriam fazer: “A nós, mulheres, o que convém são as artes interpretativas”. Rachel de Queiroz não deixa ilusões também a quem lhe escreve em busca de conselhos para encetar carreira nas letras: “Quase todos os que anseiam por escrever não têm, de maneira nenhuma, capacidade para escrever”, fulmina ela em “Vocação literária”. De resto, seria inútil lhe pedir conselhos, visto que “não há receita”.

Sorte teve a jovem Clarice Lispector, em seus anos de formação, ao não bater na porta da veterana Rachel – que provavelmente não conseguiria converter às “artes interpretativas” alguém que já aos sete anos enviava “histórias e histórias” para a seção infantil de um jornal, e que, invariavelmente recusada, ainda assim, “teimosa”, continuava escrevendo, conforme conta em “Vergonha de viver”. Em “Temas que morrem”, Clarice, adulta e consagrada, fala de seu “impulso” de escrever, “o impulso puro – mesmo sem tema”. Em “As três experiências”, confessa que nasceu para escrever, sendo a palavra o seu “domínio sobre mundo”. Vê para isso uma explicação: “É que não sei estudar, e, para escrever, o único estudo é mesmo escrever”.

Também ele assediado por jovens autores à procura de luzes, Rubem Braga, em mais de uma ocasião, manifestou por escrito o desconforto que sentia se lhe davam o papel de conselheiro. Se por um lado achava que “o novato deve publicar”, por outro estava certo de que não lhe faria mal – recomenda na crônica “Novos”, de 1953 – “meter os originais de um romance num baú por dois ou três anos para só então relê-lo e ver se vale mesmo a pena publicar. [...] Seu dia virá – virá, é claro, se vier...” Otto Lara Resende,  em “Como seria, se não fosse”, iria mais longe, ao lembrar que “um escritor pode também não escrever”. Alguns, poder-se-ia acrescentar, jamais deveriam fazê-lo...

Numa segunda crônica intitulada “Novos”, em 1954, Rubem Braga considera que “o melhor é deixar que esses meninos se arrumem por si”, pois “os que tiverem força aguentarão”. E força, nesse ofício, é o que não poderá faltar, bem sabia o Braga, que numa crônica primorosa, “Escrever”, permite que o leitor, por sobre seu ombro, acompanhe o penoso esforço de um artista que “precisaria dizer tantas coisas”, mas se sente fracassar. Mais adiante, ele avalia implacavelmente o que pôs no papel, na verdade pepitas do mais puro talento bragueano – e, alegando estar perdido, recorre outra vez ao verso do poeta espanhol Ramón de Campoamor, com que abrira a crônica: “¡Quien  supiera escribir!”.

Só acreditará nessa fingida impotência quem não conhece um mestre que ainda muito verde, aos 21 anos, às voltas com a falta de assunto, mal inescapável do ofício de cronista, simulou hilariante hostilidade ao leitor em “Ao respeitável público”, conseguindo, com postiço mau humor, e até insultos e ameaças, conduzi-lo, encantado, até o ponto final.