Retratos vivos

Umeji Ohara, avó de Haruo, Chácara Arara, Londrina-PR, 1951 circa. Foto de Haruo Ohara/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Lá está ela, metida num vestido preto de mulher antiga, junto ao guichê de uma casa de câmbio, de onde saem maços e maços de dinheiro. Você passou pelo título, A velha, e acredita estar diante de mais uma personagem que o maior de nossos cronistas vai retratar com inimitável combinação de delicadeza e força.

Será? Dois moços, jornalistas “sem um tostão no bolso, desanimados e calados”, repararam nela – e vão roubar a cena. O jovem Braga (sim, é uma história acontecida) e seu amigo Zico a veem sair para a rua com sua bolsa estufada, e, sem uma palavra, se põem a segui-la por um cenário deserto, tão deserto que bastará um gesto rápido para aplacar por um bom tempo os seus tormentos financeiros.

Enquanto você vai conferir no que deu a história, podemos falar de um amigo do João do Rio, o Clodomiro, que não padece dos males dos desmonetizados Braga e Zico. Longe disso; trata-se de alguém que qualquer um de nós adoraria ser: tendo herdado mais de uma fortuna, a criatura não precisa trabalhar. Mas é exatamente essa invejável condição que faz dele um homem infeliz: a desgraça, lamuria-se o pobre milionário, é ter-se convertido num homem que não tem o que fazer.

No extremo oposto em matéria de finanças, João do Rio se depara com outro tipo singular, um mendigo original, “sutil e sórdido”, para quem o trabalho é algo inaceitável. “É inútil”, corta ele se alguém toca no assunto. Dotado de “uma rija organização cerebral”, está certo de que é obrigação da sociedade dar-lhe as mesmas coisas de que usufrui. Por isso ele nada pede: simplesmente exige, e com que veemência!

Já o grande excêntrico que o escriba mineiro Jurandir Ferreira apanhou na vida real não conseguiria imaginar uma existência em que não estivesse ocupado o tempo todo. Não espanta que, ao se casar, tenha instalado o lar na sua oficina de seleiro. Foi feliz na condição de marido e pai, porém jamais abriu mão de “sua maior excentricidade”, um “aferrado e absoluto amor ao trabalho”. Um chato, um workaholic? Sabe que não? Havia nele uma “alegria de homem livre”, e assim viveu até o fim. A morte, quando veio, “lhe deve ter custado enormemente”, supõe o cronista – não tanto porque era a morte, mas por ser o descanso que ele jamais se permitiu.

Poderia estar falando desse camarada o nosso Braga, numa crônica dedicada ao amigo Alberto de Castro Simões da Silva (1898-1986), o compositor Bororó, que certa vez ofereceu um prato de comida a um garoto pobre – e, coração mole, acabou sustentando não só o menino como seus irmãos, ao todo seis bocas famintas. Arranjou com isso um peso em sua vida? Que nada! “Bororó se diverte como um príncipe”, atesta o cronista. “Ganhou uma batelada de netos e sorri feliz, o avô magnífico.” Moral da história: “Os sujeitos bons não resolvem os males do mundo, mas são como a aragem que faz bem”.

Mas voltemos a Jurandir Ferreira, exímio na arte de retratar tipos diferenciados. Como aquele homem sozinho que conheceu na infância e que, fascinado, nunca mais perdeu de vista. Em meio a uma família numerosa da cidade onde viveu, Poços de Caldas, no sul de Minas, chamou-lhe a atenção um menino magrinho, metido sempre em roupas escuras. “Seu mutismo e suas roupas”, escreve Jurandir, “davam a impressão de que ele não era uma realidade, mas um menino desenhado, um menino feito a crayon.” “Este é um teu irmão áptero”, chegou a dizer o cronista a seu próprio anjo da guarda: também o garoto era um anjo, só lhe faltando as asas. O qual, no correr do tempo, se revelaria um inspirado escritor, Ademaro Prezia.

Em outra ocasião, as antenas de Jurandir captaram alguém a quem chamou de O gentil-homem Leopoldo Genofre. “Muito magrinho, de olhos e cabelos claros”, exercia o ofício de guarda-livros no comércio da cidade, um século atrás. “O grande livro que escriturava na grande escrivaninha, molhando a pena a cada instante no grande tinteiro de tinta azul”, haverá de se lembrar o cronista, era, para ele, “o máximo". Na cidade se sabia de seu parentesco com um remédio de farmácia”, o “Específico Genofre”, eficaz no combate à coqueluche. Mas bem poucos estavam informados de que o homem, por detrás de seu recato e modéstia, pertencia a um ramo brasileiro de gentis-homens espanhóis.

Não é impossível que os cronistas de Minas Gerais, como Jurandir Ferreira, sejam particularmente dotados para distinguir interesse em figuras do cotidiano. A obra de Paulo Mendes Campos, em especial, é farta em personagens que em linguagem de hoje seriam rotulados como seres “fora da caixinha”. Gente que nem o Jacinto, homem franzino e manso, figurinha popular que circulava pelo bairro Funcionários, em Belo Horizonte, onde o cronista se criou. Vivendo de biscates, não dava a mínima para a sua clamorosa pobreza: “Sorria beatífico, acima de todas as misérias”. Até aquela madrugada (que não será a última em sua vida) na qual, embriagado, não se deu conta de um bonde que se aproximava.

Vivendo em Paris no final dos anos 1940, Paulo Mendes Campos conheceu ali um misterioso Pablo de voz rouca e “cabeleira alvoroçada”, um tipo que, não sem bons motivos, “estava começando a ficar lendário em Saint-Germain-des-Prés”. Uma de suas habilidades consistia em falar igualmente bem o português de Portugal e o do Brasil. Sem saber que o interlocutor era mineiro, usou com ele um autêntico carioquês. Dominava também o alemão, o inglês, o espanhol, o russo – e, feito raríssimo, “sem aquela sintaxe dura e correta dos poliglotas da gramática”. De Pablo se dizia que escapara da polícia de Hitler – mas, também, que tinha pertencido à sinistra Gestapo. Seria ele agente do FBI ou sabotador soviético?

No Rio, o cronista divertiu-se com Seu Lauro, por ele apresentado como “o maior mentiroso que conhecemos”. Certa vez, a bordo de um navio, onde exercia as humildes funções de grumete, viu cair ao mar o seu relógio – nada menos, contava, que um Patek Philippe, exclusividade de pulsos endinheirados. Que fez ele? Saltou nas águas e de lá trouxe a joia. Detalhe: não sabia nadar. Não era só mentiroso, acumulava em si esquisitices diversas, entre as quais uma linguagem que “era uma deliciosa mistura de gírias com deformações prosódicas e pedantismos.” Um simples “ato”, para Seu Lauro, tinha algo a mais, era um “acto”.

Não chegava a tanto o Leonardo, boêmio antigo que, embora bem mais velho que Paulo Mendes Campos, entabulou com ele uma fluente camaradagem. Como boêmio, “era um clássico meticuloso”. Mais que mero consumidor, na hora de comprar era um artista, nunca deixava de regatear – mas “não por sovinice”: “O que lhe dava prazer era o trabalho técnico de comprar barato”. Até nesse departamento, fazia “tudo por amor à técnica".

Não menos artista é o músico a quem Fernando Sabino dedica a divertida Pó sustenido, sobre um pianista cujos dedos, ao tocarem “certas notas” no teclado, faziam baixar do teto algo que só ele via, obrigando-o a interromper a execução. De nada lhe valeu uma internação em hospício. O problema só estará resolvido quando ele, exasperado, fizer as malas rumo a outra cidade, outro país, onde, mesmo tocando as tais notas, nenhum pó lhe caía na cabeça.

Para tudo há solução, parece crer o mesmo Sabino em Dona Custódia, a respeito de um homem que, tendo contratado como arrumadeira uma senhora desse nome, não tardará a se dar conta de que acabou virando, em seu próprio apartamento, uma espécie de inquilino. Seria ele um bocó? Se assim for, encontrará consolo numa crônica em que Clarice Lispector enumera as vantagens de ser bobo. São 22, das quais aqui se adiantam três:

● “Aviso: não confundir bobos com burros".

● “Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida”.

● “O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem".

Está vendo?